Já cheguei a passar horas decorando, enfeitando, enchendo de fru-fru o meu perfil do Steam. Cheguei até a colocar 10 reais na minha conta uma vez apenas para comprar cartinhas e fazer insígnias, aumentando meu nível e desbloqueando novas opções de decoração para meu perfil. Escolhi imagem de fundo para combinar com o showcase principal e estilizando tudo o máximo possível. Besteira, talvez, mas é o tipo de perda de tempo que eu me amarro.

Entretanto, tem algumas semanas que eu mal olho para o meu perfil. Tenho jogado bastante The Division 2 para análise, na plataforma da Ubisoft, a Uplay. The Division 2 não lançou no Steam, assim como outros jogos de peso, tipo Metro Exodus. As controvérsias não foram poucas e uma parcela da comunidade mais engajada no pc gaming não curtiu o que a Epic está fazendo. Eu, que gosto de ter meus jogos concentrados em um só lugar, também não achei muito prática a ideia de ter que instalar mais um launcher no meu computador.

Acontece que não foi apenas The Division 2 e Metro Exodus. Durante sua apresentação na GDC 2019 que rolou nos últimos dias, a Epic, mais uma vez, provou que não está para brincadeiras. Sua biblioteca tem crescido exponencialmente nos últimos meses, assinando contratos de exclusividade com publishers e estúdios para lançarem seus jogos apenas na Epic Store. Recentemente, The Outer Worlds, RPG sci-fi aguardadíssimo da Obisidian, Control, da Remedy, The Sinking City e Afterparty, todos serão lançados com um ano de exclusividade na loja do Fortnite launcher.

Não apenas vários estúdios de médio porte e desenvolvedores independentes estão preferindo a política de ficar com a maior parte do lucro, mas empresas grandes como a Ubisoft estão prometendo o mundo e um mar de rosas para a Epic em seus próximos lançamentos. Não vai ser surpresa em ver os próximos Assassin’s Creed e Watch Dogs virarem exclusivos da empresa de Tim Sweeney. Levando tudo isso em consideração, me vem uma pergunta em mente: e agora, Steam?

A plataforma da Valve sempre foi palco para alguma polêmica ou escandalização. Seja permitir jogos de baixíssimo custo inundarem a loja, afrouxar as políticas do que entra e é aprovado para venda (como a proliferação de jogos hentais e pornográficos) e não se posicionar de maneira firme e decente sobre jogos que ultrapassam o limite do aceitável que promovem abertamente o ódio e a violência (sexual) gratuita.

Steam dominou o mercado dos PCs por muito tempo sem concorrência real. A comodidade da Valve sobre nunca ter que se preocupar com outra loja a fez ficar estagnada, imóvel e muitas vezes complacente sobre a queda na qualidade geral da plataforma. Houveram várias atualizações importantes nos últimos anos e é inquestionável que o Steam é uma mídia infinitamente mais madura que qualquer outro launcher, se tornando quase um ambiente social. Porém, não foi o suficiente para conter a fatiga e o inevitável surgimento de um concorrente de peso.

Não tem mistério: agora é a hora de agir e responder a altura. Não serão as mesmas promoções de meio e final de ano que vão segurar seus jogos na plataforma: empresas sempre vão preferir gastar pouco e ganhar muito. Uma política mais amigável entre repartição de lucros, como a Epic fez, pode (e até deve) ser o primeiro passo para segurar a onda, dando motivos financeiros para se querer publicar na sua loja. Jogos de graça? Não sei, mas saber o que entra e o que é colocado a venda, controlando a qualidade, deve ser uma prioridade no Steam.

Não sou nem um pouco fã da estratégia agressiva que vem permeando as ações da Epic sobre exclusividade. PC deveria ser uma plataforma aberta, como Sweeney bem colocou, e não restringir as opções de venda para o consumidor. Me dê motivos para comprar na Epic, e não porque é a única opção de compra. Essa história de ”qual o problema de instalar mais um launcher” cai por terra quando você realmente começa a usar e perceber a diferença entre as plataformas. Todavia, é necessário reconhecer que, se está dando certo, não vai ser diferente.

Se Gabe Newell e companhia não começar a se mexer para mudar o cenário, o futuro ganha um ponto a mais de incertezas. A Valve vai ter que correr atrás do prejuízo para manter sua posição de líder de vendas no mercado digital nos PCs, dependendo de uma mudança quase radical na postura de como a plataforma vai se manter contra os 83 milhões de usuários ativos no Epic Launcher.

Com um roadmap promissor que promete trazer features necessárias para a plataforma, a Epic também tem conhecimento que precisa se atualizar para manter as a base de usuários ativa e conectada. Features simples como cloud save, procura por gênero e tag, análise de usuários e lista de desejos ainda estão planejadas para os próximos meses, sabendo que precisa se igualar com o Steam nesse quesito. Espera-se que todos esses recursos sejam implementados com qualidade, caso contrário o tiro sai pela culatra.

A briga está longe de acabar e estamos acompanhando de camarote qual será o desfecho dessa história.