Os destaques de 2017, por Lucas Moura do hu3br.com

Escrever sobre 2017, aliás, sobre qualquer ano, é uma tarefa árdua para mim. É a questão de parar, olhar para atrás, engolir os erros, assumir responsabilidades e encontrar novos desafios para o ano que vem. Mas também é hora de perceber no quanto melhorei em certas áreas, como pude encontrar novos estilos, interesses e pontos de vistas.

Alguns dos meus favoritos do ano refletem tal atitude, meu crescente interesse por aplicações de temas sociais, a minha contínua paixão por estratégia, jogos que refinam suas mecânicas ao limite e os raríssimos momentos da minha vida em que me senti de fato conectado com personagens. Como todo jogo, não são isentos de falhas. Afinal, nenhum jogo é.

Mas como sempre digo: jogar é buscar sempre expandir seus horizontes – conceito que busco aplicar sempre na minha vida. Espero que você entre em 2018 com o objetivo de também expandir os seus horizontes. Conheça novos gêneros, fuja um pouco do tradicional, dê uma chance ao desconhecido. Quem sabe você não acaba o ano com aquela sensação de realização? Vai por mim, sempre é maravilhosa.

Nier Automata

Eu ainda luto dentro de mim para descrever as emoções que senti ao jogar Nier: Automata. Felicidade, ódio, perda, confusão, surpresa, euforia, plenitude e paz.

Longe de ser um jogo de “ação” tradicional, a mistura de Yoko Taro com a Platinum Games nos trouxe uma das mais emocionantes e surpreendentes tramas de 2017. É um jogo que subverte expectativas, que faz com que você se importe com os personagens, e que faz questão de mostrar – e testar – o quanto você se importa com eles.

Nier Automata une temas e mecânicas que não deveriam funcionar em conjunto; de uma maneira mágica, faz com que tudo isso junto faça sentido e enriqueça o mundo de 2B, 9S e A2. É um jogo em que androides e máquinas em muitos momentos mostram mais humanidade do que o verdadeiro ser humano. São eles que aprenderam a ser humanos, ou nós que nos esquecemos como? Seja como for, é um jogo a ser apreciado moderadamente e de preferência com uma caixa de lenços ao lado.

Afghanistan ’11

Enquanto jogos sobre terrorismo e operações em países ocupados são abundantes desde os ataques de 11 de setembro, Afghanistan ’11 é um dos pouquíssimos a lembrar que tais confrontos não são compostos unicamente de militares.

Parte estratégia e parte logística, Afghanistan ’11 reforça a ideia de que uma guerra não pode ser vencida unicamente pela eliminação da ameaça, mas sim via um esforço conjunto das forças armadas e civis da região para desmantelar possíveis milícias, grupos extremistas e forças separatistas. Ao longo de uma campanha com 18 missões o jogador tem de saber dominar, além do combate, a arte de trazer infraestrutura, apoiar a população local com mantimentos e em troca receber a confiança deles.

Apesar de carecer das nuances políticas de jogos como Labyrinth – War in Terror (GMT Games, 2010), e a despeito do tom imperialista que é um produto de sua origem, Afghanistan ’11 é uma excelente apresentação, mesmo que superficial, dos cenários de guerra da atualidade e a subversão da ideia de que guerras são compostas só do “preto ou branco”.

Nex Machina

Se Nex Machina não fosse um dos meus favoritos do ano, certamente estaria na lista dos “mais injustiçados do ano”. O shooter top-down da Housemarque é a culminação dos seus 22 anos de desenvolvimento de games com uma ótima pegada “arcade” em conjunto com Eugene Jarvis (Smash TV, Robotron:2084).

Dos controles precisos à trilha sonora empolgante, tudo em Nex Machina parece ter sido desenvolvido e refinado até o mais próximo da perfeição. Junto a isto, uma das melhores e mais intuitivas tabelas de liderança já feitas me fez revisitá-lo continuamente ao longo do ano.

“Só mais uma rodada”, “Mais 10 mil pontos e eu subo dez posições”, “Assim que completar o desafio eu consigo moedas e desbloqueio uma nova roupa para meu personagem”. Essas frases eram declarações e provas do meu vício e da minha paixão pelo game, das escapulidas de 30 minutos na hora do almoço às quatro ou cinco horas que gastei para bater a minha própria pontuação. Nex Machina é a epítome do arcade e eu o amo por isso.

Opus Magnum

“Você não está jogando da forma correta”. A frase – que carrega um tom exclusório – é constantemente vociferada pela comunidade de games. O que é, enfim, jogar da forma “correta”? Devemos sempre seguir um padrão para agradar os outros?

Em uma união de construtor de máquinas de alquimia e puzzle game, Opus Magnum é uma antítese a este conceito. O game da Zachtronics coloca a imaginação do jogador em primeiro lugar. Quebra-cabeças viram objetos de fascinação, capazes de serem repetidos pelo prazer da otimização da solução.

Ao remover o rigor de uma única solução, ele permite que o jogador tome o seu tempo, escolha as peças e monte máquinas fabulosas. Pouco importa se são melhores ou piores, o que importa é que ele encontrou – do seu jeito – a resposta. Tal como a vida, nem sempre o caminho mais rápido equivale ao melhor ou ao mais emocionante – ou ao mais belo.

Total War: Warhammer II

A transformação da Creative Assembly nos últimos dez anos foi algo incrível de se acompanhar; do ambicioso – porém decepcionante – Empire: Total War, para cauteloso Shogun 2, ao desastroso Rome II e seu ressurgimento pelo inusitado Attila. Estamos no que pode ser um dos melhores períodos da desenvolvedora britânica com a franquia Total War e sua nova incursão no rico universo de Warhammer – com três jogos planejados dos quais dois já foram lançados: Warhammer 1 e 2.

A sequência traz um tom evolutivo em comparação com os títulos anteriores; no entanto, a evolução é mais significativa do que tendemos a ver com a mudança de era (Roma, Shogunato e Medieval).

Em Warhammer II a Creative Assembly foi capaz de apresentar mecânicas que tornam a camada estratégica (mapa de campanha) mais interessante de se interagir. Uma sensação de constante pressão força o jogador a tomar decisões arriscadas, devido à necessidade de dominar novas áreas em favor de manter os cofres cheios ou impedir o inimigo de tomar controle do Vortex – elemento chave para vencer na campanha.

Enquanto que na camada tática o foco é o balanceamento, o game não deixa de impressionar com as incríveis batalhas, a vasta – e diversificada – seleção de unidades e a ênfase do uso de magias como uma alternativa para controle de áreas. Majestoso para fãs de Warhammer e promissor para quem espera a próxima sequência focada em períodos históricos da humanidade.

The Long Dark

De um gênero que muitos consideram como “criativamente esgotado”, surge uma pedra polida ao longo dos últimos quatro anos. The Long Dark não é um survival tradicional. A sobrevivência nele não é consequência dos seus atos tampouco tratado como uma lista de compras no mercado. Ela é a razão do jogo existir.

Sobreviver em The Long Dark significa superar nevascas na busca de um mísero pedaço de madeira, a fugidia chance de ter uma noite quente de sono. É memorizar partes do mapa, vibrar de felicidade ao encontrar papel e carvão para criar anotações; é racionar, se sentir perdido e com medo de morrer sozinho e esquecido.

Os perigos não provêm de monstros ou zumbis, mas da natureza.  Silenciosa, ela te mata com o vento cortante, com a falta de comida, com a mudança de hábitos dos animais. Você vai morrer uma, duas, três vezes, mil vezes se for necessário; mas uma hora você vai aprender a sobreviver, se adaptar, encontrar formas de enfrentar essa natureza impessoal e impiedosa e transformar o ato de ver o sol mais uma manhã em uma pequena (ou grande) vitória. Uma lembrança de que devemos respeitar a natureza, mas também que somos incrivelmente adaptáveis a ela.

Observer_

Se a cada dia mais caminhamos em direção ao futuro distópico demonstrado por livros, filmes e artes desde meados dos anos 80, Observer_ se desfaz da ambição de contar uma narrativa “épica” para abraçar o intimismo de um conjunto habitacional de uma Cracóvia do futuro.

Ao invés de se focar em demonstrar a causa, ele prefere apresentar – de forma nua e crua – os resultados de uma sociedade decadente, dominada por um sistema de créditos onde somente quem fez “bons atos” é capaz de subir na vida.

Vozes distorcidas atrás de interfones precários. Inquilinos emocionalmente abalados como se a hora da sua morte já houvesse sido estabelecida, não pela natureza, mas por uma corporação. Um protagonista cuja vontade de seguir em frente é reduzida a cada batida do coração. O desespero de viver encapsulado em um edifício. Os corredores apertados de Observer_ pedem para serem explorados, decifrados, fotografados. Um retrato futurista que às vezes passa um pouco perto demais da realidade.

Wolfenstein II: The New Colossus

Os altos e baixos emocionais de Wolfenstein II: The New Colossus vão do absurdo de lutar em uma cadeira de rodas em um submarino de última geração a ouvir horrores da guerra de um membro da resistência. Como dois elementos tão destoantes podem existir dentro de uma mesma história? Só com a capacidade notável da Machine Games em saber onde e como usá-los.

Mais do que uma “montanha russa”, Wolfenstein é uma Wolfenstein é uma jornada que se intensifica momento a momento até atingir um ápice tão espetacular quanto improvável, e que se supera a cada esquina ao entregar batalhas memoráveis, situações inusitadas, variedade de aproximações e controles precisos.

Ele entra na lista não apenas em virtude de questões puramente técnicas, mas sim pela temática que ultrapassa a fronteira dos Estados Unidos, é familiar a 2017 e deve ser carregada para a vida. Falo do ato de resistir; resistir à opressão, ao controle, ao domínio de uma elite. Poucos do elenco são de fatos soldados; são pessoas do cotidiano levadas ao extremo. A pluralidade de etnias, interesses e origens nos lembra de um elemento importantíssimo: de que somos mais fortes quando unidos.

Hollow Knight

Salvo o clássico Castlevania: Symphony of the Night, o termo – e o “gênero” – “metroidvânia” é um que nunca se encaixou bem com o que eu procuro em um jogo. Uma sensação de ser constantemente guiado e desguiado para locais em busca de chaves, cartões ou novas habilidades me fazia jogá-los quase como no automático. Hollow Knight deixa essa carga na porta de entrada e se volta para dar o que tanto amo: exploração.

As primeiras horas são de atordoamento, um complexo sistema de cavernas subterrâneas que se ramificam para ruínas, bosques, estranhas edificações. Tristeza e esperança são justapostos por meio do cenário, da forma que você navega pelo cenário e interage com o mesmo.

Não houve um momento em Hollow Knight onde eu não tenha sentido um pouco de tensão, desespero, sensação de vitória ou de aprisionamento. Não corra, não faça nada no automático, não siga o caminho mais próximo. Tome o seu tempo, explore e seja recompensado com um dos mais belos e emocionantes jogos do gênero.

Steel Division: Normandy 44

De um título mediano no lançamento a um exemplo de evolução pós-lançamento, Steel Division: Normandy 44 da Eugen Systems é um daqueles que me premiam com novas descobertas cada vez que o jogo.

Com um sistema de fases – usado para recriar o conceito de “reconhecimento”, “confronto” e “batalha” ao conferir ao jogador acesso gradual a unidades mais poderosas – em conjunto com o controle de mapa dinâmico e a construção de “decks” para a batalha, há um grau de profundidade que pode ao mesmo tempo intimidar e também torná-lo ainda mais atraente.

Via tal metodologia, Steel Division é capaz de reproduzir na frente do jogador a necessidade de unidades de apoio, a compreensão de domínio de flancos, assim como a importância de buscar brechas nas defesas do inimigo para cercá-los -um feito impressionante ao levar em conta o escopo de partidas de até 20 jogadores e mais de 200 unidades na tela.

Só não é mais impressionante do que o conteúdo adicional lançado pela Eugen, que vai de novos mapas, correção de problemas de rede – agora reduzidos para raras ocasiões – a variantes de mapas e modos de jogo que reinventam a execução de manobras táticas. A curva de aprendizado é alta, mas aqueles tiverem as horas (e a paciência) necessárias para aprendê-lo terão em mãos um dos mais robustos jogos táticos do ano.