A Primeira Guerra Mundial é pouco explorada nos videogames – principalmente se comparada a Segunda Guerra, tema tão comum na indústria. Mas, próximo ao centenário do seu início, fomos contemplados com Valiant Hearts: The Great War, um jogo belíssimo que explora o conflito de forma pouco usual nos games.

História

Desenvolvido pela Ubisoft Montpellier utilizando a engine UbiArt Framework (a mesma de Rayman Origins, Rayman Legends e Child of Light) e lançado pela Ubisoft para PS3, PS4, XBOX 360, XBOX ONE e PC em 25 de junho de 2014, recebendo port para iOS em 4 de setembro do mesmo ano, Valiant Hearts foca basicamente nas relações humanas de quatro (ou cinco) protagonistas envolvidos com os conflitos da Primeira Guerra Mundial, na sua época chamada de A Grande Guerra.VH_karl

Seu enredo é baseado em cartas trocadas entre soldados, suas famílias e amigos durante o conflito. Elas inspiraram a composição das histórias de Emile (agricultor francês), Karl (agricultor alemão residente na França e genro de Emile), Freddie (norte-americano, soldado da Legião Estrangeira) e Anna (enfermeira belga). Junto deles, ajudando a unir suas trajetórias, está Walt, o cão de resgate – e, talvez, o único personagem com algo que poderia ser chamado de uma carreira militar.

Os quatro personagens são pessoas comuns, civis que seguiam suas vidas alheios a tudo que pudesse envolver um contexto de guerra, até a eclosão do conflito. Karl foi deportado para seu país e compulsoriamente incorporado ao exército alemão, Emile foi convocado para o front francês logo em seguida, Anna (estudante de veterinária) se voluntariou como enfermeira visando salvar vidas e Freddie se alistou na Legião Estrangeira por uma motivação pessoal causada pela guerra. Valiant Hearts trata de indivíduos, não de um herói, algo que acaba refletindo em sua jogabilidade.

Gameplay

Um side-scroller 2D pautado em puzzles bastante intuitivos. As mecânicas de jogo não são colocadas como um desafio, pois foram pensadas como uma ferramenta que ajuda a ligar a história e conduzir sua narrativa. Vale mencionar que os puzzles não ficam repetitivos e que o jogo possui uma boa curva de aprendizado, favorecendo a reinvenção de seus mecanismos. Mais uma característica interessante da jogabilidade são seus vários momentos de “co-op single player”, quando pode-se alternar entre dois personagens (com o auxílio do Walt) ou quando o próprio cão possibilita a resolução de algum puzzle.

Outro aspecto que mostra a natureza comum dos personagens são suas “habilidades especiais”. Cavar buracos e cortar arame farpado não são o tipo de skill esperada num jogo de guerra. Mas é isso que Valiant Hearts te oferece, o lado menos bélico do conflito, onde entulhos são obstáculos e arame farpado causa desespero. Há morte por toda a parte, principalmente nos cenários de front, mas elas não são causadas pelo jogador. Na verdade, a belga Anna possui a capacidade de tratar dos doentes e feridos, afinal, ela é uma enfermeira voluntária e protagoniza ótimos mini-games dentro do game maior – não é fácil salvar vidas… Mas é divertidíssimo guiar um carro lotado, ao som de Cancan enquanto desvia de bombas e obstáculos na pista – sim, lembra a fase dos gnus do jogo d’O Rei Leão.

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Também é importante destacar a ótima imersão de Valiant Hearts. O jogo é conduzido de tal forma que me causou uma profunda empatia pelos personagens, me levando a questionar o sentido de tudo aquilo – não o sentido do jogo em si, mas daquele contexto de dor. Compartilhava dos seus dessabores, revoltas e desesperança, assim, posso dizer que o processo de imersão foi excelente. Fui gradativamente me envolvendo com aqueles personagens ao ponto de me surpreender com a capacidade de compreendê-los tão profundamente.

Aspectos artísticos

Valiant_Hearts_Arte

Quanto a parte visual, Valiant Hearts tem gráficos simples, porém lindíssimos. Inteiro desenhado em cartoon, segue a linha dos jogos desenvolvidos na engine UbiArt Framework: games muito bonitos, com a arte remetendo a um estilo um pouco mais infantil. Isso atribui alguma leveza ao universo pesado de Valiant Hearts. Um detalhe interessante na representação dos personagens é a ausência dos olhos, escondidos por suas franjas e quepes. Isso reforça a ideia de serem indivíduos comuns, não possuindo um rosto bem definido, como tantos outros combatentes da Primeira Guerra Mundial.

As músicas também são muito boas. A maioria tem uma pegada um pouco mais melancólica, mas, sempre combinando com o momento, existem outras mais animadas ou tensas, colaborando com a ambientação e imersão do jogador. O tema principal, uma triste melodia tocada ao piano, se repete algumas vezes durante o jogo. Isso não me incomodou, mas creio que poderia ser evitado com pequenas reinvenções na música.

O trabalho de localização de Valiant Hearts merece destaque, pois além de possuir legendas em PT-BR, conta com informações sobre o Brasil durante a guerra inseridas no jogo. Isso certamente ampliou ainda mais a necessidade de pesquisas, principalmente porque, acredito, tal cuidado foi tomado com todas as dez línguas nas quais o jogo está traduzido. Vale lembrar que os mais de cem colecionáveis espalhados pelo jogo são reais e possuem alguma especie de registro histórico comprovando a existência de cada um deles.

VH_pt-br

Valiant Hearts é um jogo excelente, porém com fator replay baixo. Ele te oferece tudo no primeiro gameplay. Existem dois aspectos que podem te levar ao jogo novamente: recolher algum colecionável que ficou para trás ou por apego aos personagens, por vontade pura de revisitar aqueles acontecimentos. Confesso que ambos os motivos são suficientes para mim.

Conclusão

A conclusão é que Valiant Hearts é feito com muito cuidado, abordando um período histórico pouco explorado sob um prisma diferente do usual. Ele proporciona algo entre 9 e 12 horas de entretenimento, recheado de informações sobre a Primeira Guerra Mundial e um final emocionante. Pega um balde pras lágrimas lencinho que Valiant Hearts: The Great War vale todo tempo e dinheiro investidos!

ReviewVH

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  • Excelente pesquisa histórica
  • Personagens cativantes
  • Arte

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  • Jogabilidade poderia ser um pouco mais desafiadora
  • Músicas um pouco repetitivas

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