A experiência com jogos desse tipo são uma montanha russa. Desde Destiny, o sentimento de receber um game cheio de promessas mas nenhuma sustância era assustador – era quase como comprar um investimento que só te daria retorno daqui um ano ou dois. Expansões, patches e atualizações iam “recheando” o jogo até que ele finalmente se tornasse o produto pelo qual você pagou.

O problema é que, até lá, o investimento era alto. Não só de dinheiro (as expansões de Destiny, por exemplo, ainda são salgadíssimas, com passes anuais, etc.) mas também de tempo. É frustrante gastar horas se decepcionando com mecânicas e melhorias que irão ser refinadas daqui certo tempo, então pra que comprar agora? Mesmo com tantas referências no mercado, Anthem, por exemplo, conseguiu ser mais uma decepção nesse hall da fama de looter shooters lançados de forma capenga.

Levando isso tudo em conta, o anúncio de The Division 2 mal me causou excitação, e por motivos plausíveis. Estaria a Massive e a Ubisoft repetindo o mesmo erro, como todos outros jogos do gênero nos últimos anos? O primeiro The Division só viu sua redenção no patch 1.8, sofrendo quase que uma reformulação total de suas mecânicas – e deu bastante certo. O solo estava semeado, mas as dúvidas ainda permaneciam.

Para a minha surpresa (e da mídia geral), eu estava enganado. The Division 2 não só aprendeu com os erros de outros jogos e do próprio passado, mas trouxe um incremento na fórmula que eu não esperaria no lançamento, muitos menos para um jogo desse porte. Houve mudanças, inovações, tudo na mesma fundação sólida construída no primeiro jogo.

A história

O enredo é uma continuação direta do primeiro jogo, se passando meses após os acontecimentos em Nova Iorque e o alastramento do vírus Green Poison em solo norte americano. Em determinado momento, toda a rede da Divisão se apaga e agentes do país inteiro são sinalizados com uma coordenada específica: Washington D.C. A resistência da capital americana está ameaçada por novas facções, e a nova base na Casa Branca precisa se estabelecer para conter o avanço do vírus.

Além de resistir, o momento é crítico para os cientistas e pesquisadores que estão próximos de uma cura, e os agentes precisam garantir a segurança daqueles que visam ao progresso. Sem muitos rodeios, a história se propõe da mesma forma que no primeiro jogo, de um jeito tímido, não se ousando a transbordar mais do que o necessário para não atrapalhar o gameplay. Os personagens são introduzidos de forma simplória, sem nenhuma significância maior do que seus nomes ou o que eles fazem na base de operações.

É de certa forma um desperdício, mas que não faz falta. Os áudio logs, que são coletáveis, funcionam como um complemento geral para contar a história das pessoas que viviam ali, incluindo interação entre os membros das facções inimigas. Mesmo sendo conversas (em sua maioria) triviais, é sempre legal saber que existe algo além de números e levels. O mesmo acontece com esculturas, pinturas e quadros: todas as pequenas coisas ajudam a contar uma história maior.

Aí vemos o poder nos detalhes, de contar histórias com elementos visuais. The Division 2 possui uma das engines gráficas mais poderosas atualmente, com uma atenção às minuciosidades fora do comum. Em todo ambiente, quarto, rua, avenida, prédio, casa e parque vai ter algo pra contar sobre a vida antes do outbreak. É assustador, bonito e um dos pontos mais charmosos que esse jogo possui – a exploração pela exploração. Mesmo isso soando contraditório por conta do gênero do game, não é necessário incentivo maior para se perder entre os becos e ruas de Washington, apesar de que o jogo acaba te recompensando com pequenos pontos de loot também. Esqueça a história falada e se atente à história visual.

As mecânicas

Caso seja um jogador do primeiro jogo, já deve saber exatamente o que te espera. Não que seja um fator negativo; a fundação de gameplay e de tiro do primeiro jogo era bem sólida, apenas carecia de um apelo maior. Em The Division 2, houve ajustes e mudanças que fizeram bastante sentido e ajudaram a aliviar o famoso efeito “esponja de bala” que o jogo original tanto sofria. Inimigos agora possuem armaduras e pontos fracos que, com tiro concentrado, quebram e expõe sua vida de forma direta, não levando mais que alguns tiros para morrer.

Entretanto, o jogador também passou pela mesma mudança. Esqueça kits médicos que recuperam seu HP rapidamente; aqui temos reposição de armadura e não muita coisa além para segurar sua vida no lugar. Isso força o player a ser mais cuidadoso, avaliar melhor suas estratégias e organizar as builds de forma mais coesa. Há mais habilidades também: novas adições como o Firefly, Hive, Chem Launcher e Drone (e as variações de cada uma delas) dão muito mais profundidade à estratégia do jogo.

Existem também novos perks, além do sistema reestruturado de mods para as armas. Agora todo mod é fixo, com pontos negativos e positivos (para balancear suas armas), sendo necessário dar craft apenas uma vez. Toda habilidade também tem níveis variados de mods, da raridade verde (mais básica) à amarela (high end), enriquecendo as propriedades da skill.

As atividades no mapa também se intensificaram e se diversificaram: pontos de controle (bem similares aos outposts na série Far Cry) marcam presença, mini atividades variadas (salvar reféns, impedir execuções públicas, desativar broadcasts de facções inimigas, etc.) e um amontoado de coletáveis, como já mencionado. Há também uma porção de novas missões paralelas, strongholds (missões de assalto às facções), projetos a serem concluídos nos assentamentos de civis espalhados pelo mapa e mais outra penca de coisas que eu poderia ficar citando aqui por pelo menos meia hora. O feedback sobre a falta de conteúdo do primeiro jogo foi ouvido e a Ubisoft respondeu à altura. Em qualquer esquina, a qualquer momento, tem algo para ser feito.

Mesmo após eu ter explicado isso tudo, existe um ponto crucial que deve ser muito bem avaliado antes de qualquer compra: se você não gostou do gunplay (e gameplay) do primeiro jogo, nem mesmo todo o conteúdo novo do mundo vai te prender aqui. É a mesma base e a mesma pegada. Os inimigos estão lá, você corre para um cover e mata tudo o que se move. A essência é exatamente a mesma, com a diferença de um apanhado de melhorias e adições.

O endgame

O aspecto mais importante desse gênero, o endgame é basicamente onde a maioria dos jogadores ficarão a maior parte do tempo (os mais hardcore, pelo menos). Farmando itens específicos em busca da build perfeita, missões de alta dificuldade e raids complementam a experiência de quem passa horas e horas matando os mesmos chefes. A Ubisoft revisou e aprendeu com os perrengues do primeiro jogo – principalmente com a experiência pós-patch 1.8 que revitalizou bastante o endgame.

Em The Division 2, o jogo só começa aqui. Ao finalizar todas as missões principais, uma nova facção invade Washington e toma controle de todas as áreas do Estado. A Black Tusk é uma milícia altamente treinada e equipada tecnologicamente; as missões de história e strongholds se tornam missões invadidas pela organização, consequentemente aumentando a dificuldade. Não apenas as missões, mas todo o mapa (incluindo os pontos de controle) são invadidos pela Black Tusk. Se você achou que conseguiu limpar o mapa antes da história acabar, bem, vai ter que reconquistar tudo de novo.

Isso soaria como um problema caso o jogo não te recompensasse da forma certa, o que (ainda bem) não foi o caso. The Divison 2 te dá um banho de loot a todo momento, em qualquer atividade que você fizer. Tendo em vista o número de status e rolls possíveis para um só equipamento, agradeço bastante por sempre encontrar novas armas e armaduras ao longo do caminho. E é desse jeito que tem que ser: looter shooters têm que te prender, querer que você jogue só mais uma missãozinha antes de dormir. Ao desbloquear as três especializações que o jogo oferece, uma camada a mais de profundidade é adicionada, com armas extremamente poderosas substituindo as três habilidades ‘supremas’ do primeiro jogo.

Um lança-granadas, uma sniper calibre 50 e uma besta com diversos tipos de munição completam mais ainda seu arsenal, deixando seu personagem ainda mais versátil na hora do tiroteio. Porém, considere que a munição para essas armas são escassas, te obrigando a usá-las apenas quando a coisa realmente apertar. As armas, ao meu ver, funcionam muito melhor que habilidades especiais e são mais balanceadas, principalmente nos modos competitivos.

Analisando o todo, o endgame de Division 2 é, sem sombra nenhuma de dúvidas, um dos mais completos atualmente – sem a necessidade de patches ou expansões para melhorar a experiência. Com ainda mais conteúdo por vir, não é difícil imaginar a Ubisoft dando suporte ativo a esse jogo pelos próximos 3 ou 4 anos, valendo bastante seu investimento.

A conclusão

The Division 2 é quase um milagre do gênero. Em meio a tantas decepções, finalmente encontramos uma pérola – um jogo que não tem o menor respeito ao seu tempo livre, mas que vai te recompensar a cada esquina explorada e missão cumprida. Mesmo sem um enredo convincente, a ambientação se encarrega do trabalho de contar as histórias e as mecânicas te fazem esquecer do motivo de se ter uma em primeiro lugar.

As mecânicas coesas com um sistema de recompensas que sabe verdadeiramente te recompensar é a fórmula não-tão-mágica para o sucesso, e você pode encontrar tudo aqui. É a Ubisoft fazendo escola para outros estúdios abrirem o olho e verem como se realmente faz um RPG de qualidade e, principalmente, de peso.

Escolinha da professora Ubisoft de como fazer um RPG decente
Endgame Conteúdo e mecânicasAmbientação
EnredoMatchmaking (às vezes)
8Valor Total
Votação do Leitor 3 Votos
5.5