Análise – Shadow of the Colossus (2018)

Fevereiro nos brindou com a chegada de um dos grandes clássicos dos games à nova geração. Shadow of the Colossus, idealizado por Fumito Ueda, é hoje um dos exemplos mais significativos de jogos digitais que são considerados obras de arte, seja por sua narrativa, seja por seu design minimalista, seja pela estética da experiência oferecida pelo seu gameplay. Não são poucos os exemplos de tentativas de resgatar jogos de gerações passadas que acabaram não sendo tão bem-sucedidas; logo, quando se falou em tocar num desses grandes totens da indústria, não faltaram motivos para ficar apreensivo. Agora, com o jogo lançado, já é possível dar o veredito: afinal, o remake, feito do zero para o PS4 pela Bluepoint, fez jus à grandiosidade da obra, ou acabou a desvirtuando?

De volta às terras proibidas

Shadow of the Colossus conta a história de Wander, um jovem rapaz que rouba uma espada mágica e parte com o corpo sem vida de sua amada Mono rumo às terras proibidas. A intenção de Wander é se encontrar com a entidade Dormin que, segundo as lendas, teria o poder de trazer uma alma de volta à vida. Chegando às terras proibidas, Dormin diz que Wander precisará destruir as formas encarnadas na terra de 16 deuses, os Colossos, para poder ter seu desejo de reviver Mono realizado. E é assim que o jogo se inicia, com Wander montado em sua égua, Agro, e com apenas um arco e uma espada nas mãos, precisando localizar cada um desses seres mitológicos, descobrir suas fraquezas e derrotá-los.

O primeiro ponto que vale a pena ser ressaltado está na grandiosidade do mundo de Shadow of the Colossus. Temos aqui um ambiente belíssimo, com as mais variadas paisagens naturais, indo de florestas a montanhas, de praias a desertos, todas com aparências igualmente estonteantes. Nesse aspecto, os visuais são de cair o queixo. As cenas em que se cavalga em ambientes mais abertos são acompanhadas por uma câmera panorâmica que, por instantes, se aproxima do chão e revela detalhes da vegetação e, logo depois, se eleva e mostra a dinâmica do movimento de Agro e a amplitude do espaço. O jogo possui suporte a HDR e pode ser jogado a 60 FPS no PS4 Pro, o que provavelmente potencializa tudo isso (testei o jogo na versão normal do PS4, então não pude conferir).

Ao mesmo tempo que esse mundo é grandioso e imponente, ele reforça, simultaneamente, a intensa sensação de solidão. Com exceção dos poucos e pequenos animais espalhados, não há mais nada ali. Apenas você, sua égua e os colossos. Somada a isso está a magnífica trilha sonora de Kow Otani, que atua de maneira orquestrada com a passagem de Wander por cada um dos desafios, acentuando situações de combate e destacando os momentos de pesar após a queda de cada um dos gigantes. A trilha casa perfeitamente com aquele sentimento agridoce: você vence o colosso, mas, ao mesmo tempo, sente tristeza por sua morte.

A união perfeita entre game design e narrativa

Tratando do gameplay, especificamente, nesse remake tivemos poucas alterações: há apenas um novo modo de configuração dos botões, com opções mais confortáveis para acessar cada uma das funções do jogo (ainda assim, a versão clássica está disponível no menu de opções para quem a preferir). Um aspecto que me encantou em Shadow of the Colossus na primeira vez que o joguei, e que permanece agora, no remake, se dá com a movimentação de Wander: vemos aqui um exemplo de design que reforça a narrativa do jogo. Wander é desajeitado e fraco. Ele vai tropeçar, vai se desequilibrar e vai cair várias e várias vezes. Se for atingido por um golpe mais forte, vai ficar longos segundos desacordado no chão. E uma vez em cima de um colosso, será jogado de um lado para o outro, como se fosse feito de papel. Num primeiro momento, pode ser até irritante, mas essa escolha dos criadores amplia a consciência da pequenez do protagonista diante dos colossos e aumenta a sensação de desafio: como um garoto tão frágil poderá derrotar aqueles gigantes? Shadow of the Colossus é um exemplo brilhante do quanto narrativa e gameplay podem estar sintonizados e ampliarem, em conjunto, a experiência com a obra para um nível mais elevado.

Uma aventura nem só de glórias…

dois pontos negativos, porém, que chamaram a minha atenção. Eles não diminuem de maneira alguma a grandiosidade desse remake, mas acredito que são dignos de nota. O primeiro deles é a IA da Agro, a égua de Wander. Fumito Ueda já revelou em entrevistas que boa parte das dificuldades no controle de Agro eram intencionais, afinal, “uma égua de verdade nem sempre vai te obedecer”. Ok, entendemos isso, mas algumas situações poderiam ter sido um pouco mais refinadas nesse remake, sem necessariamente diminuir o comportamento independente de Agro. Um exemplo é o quanto precisamos estar milimetricamente posicionados para conseguir montar na égua. Principalmente nas batalhas em que você precisa montar e desmontar rapidamente, essa mecânica é extremamente frustrante e lenta, interrompendo o fluxo mais ágil do combate. Outra coisa chata é que Agro vai parar e dar um pinote para qualquer pedrinha ou obstáculo menor que estiver no seu caminho – me desculpem, mas um cavalo de verdade pularia a pedrinha e continuaria em frente sem grandes demonstrações de personalidade. Ainda assim, é algo que atrapalha mais durante a primeira hora de jogo, mas que você vai se acostumando com o passar do tempo, até (quase) dominar perfeitamente conforme a história se aproxima do fim.

O segundo ponto negativo é que pouca atenção parece ter sido dada tanto às expressões faciais de Wander quanto à própria textura da pele do personagem. Enquanto os colossos e os ambientes foram magnificamente reconstruídos, Wander parece ter sido deixado um pouco de lado. Explorando o modo fotografia, o contraste entre o herói e a paisagem hiper-realista fica ainda mais evidente, é quase como se ele fosse um boneco de cera no meio de tudo aquilo. Com a intensidade do drama e da carga emocional da história, gostaria de ter visto um Wander com expressões mais reais, mais humanas e mais bem-trabalhadas. No caso do remaster para o PS3 foi até compreensível não terem modificado tanto esses aspectos, por se tratar apenas de um port, mas, agora, com a possibilidade de refazer o jogo do zero num console como o PS4, não faz muito sentido não terem dado a devida atenção a esses elementos.

 

Novas páginas numa história já bem conhecida

Uma novidade para os jogadores do PS4 veio com a inclusão de um novo item colecionável: as moedas de ouro. Há, agora, espalhadas pelo mapa, 79 moedas que, quando reunidas, dão acesso a um item exclusivo que não existia na versão original (sem spoilers, haha). Há também o já mencionado modo fotografia, que permite capturar os mais diversos ângulos desse incrível mundo e de seus habitantes. Fora isso, o jogo permanece o mesmo de antes.

Isso nos leva de volta à pergunta feita no início do texto: o remake faz jus à obra original? Em meio a muitas polêmicas rodeando a internet desde o lançamento, com uma parcela da crítica inclusive dizendo que, ao tornar o mundo tão belo, colorido e nítido, a Bluepoint acabou “desvirtuando” alguns aspectos do jogo original, eu prefiro discordar e me juntar à maioria que diz que sim, Shadow of the Colossus é o melhor remake já feito.

Por mais que os visuais estejam diferentes (para melhor, na minha opinião), o que mais importa ainda está lá: a jornada solitária de Wander e Agro em busca dos colossos. Os mesmos desafios, a mesma jogabilidade, a mesma narrativa. É a essência do que faz Shadow of the Colossus um clássico dos games, só que mais polida e amplificada. É a possibilidade de resgatar, revitalizar e marcar a presença desse jogo não apenas em uma nova geração de consoles, mas em uma nova geração de jogadores. Para aqueles mais radicais às mudanças, há sempre a opção de jogar novamente as versões do PS2 e do PS3. Mas, para quem nunca jogou, ou para quem jogou há muito tempo, eu recomendo fortemente jogar a versão do PS4. Esse é, sem dúvidas, um daqueles jogos que vale a pena ser revisitado de tempos em tempos, e que ressalta muitas das potencialidades que os videogames têm e que os fazem atingir o status de arte.

A análise foi realizada com base na versão fornecida pela Sony. Shadow of the Colossus (2018) está disponível para PlayStation 4.

Análise: Shadow of the Colossus (2018), um clássico lapidado para uma nova geração
Gráficos refeitos do zero e de extrema qualidadeControles otimizados para uma experiência mais confortável Cuidado ao manter a essência da obra original
IA da égua Agro pouco otimizadaExpressões e textura da pele de Wander pouco trabalhadas
9.8Valor Total
Votação do Leitor 3 Votos
10.0