E QUEM DISCORDAR POR FAVOR SE RETIRAR DO RECINTO. To brincando, fica aí. Sério, na boa.

O que eu vi de gente tacando o fogo ou menosprezando o último Silent Hill lançado em 2012 não foi brincadeira não. Embora existam muitos argumentos no qual eu concorde que poderiam ter deixado o jogo bem melhor, o diabo não é tão feio quanto pintam por aí.

[quote align=’left’]Como Silent Hills pode revolucionar o terror nos games[/quote]

E se você for um assídio fã da tetralogia original e queira muito me xingar agora, calma. Vou expor alguns motivos que eu, pessoalmente, acho relevantes ao falar do Downpour. Caso concorde comigo, ótimo! Se não, vamos conversar.

Joguei e zerei no mesmo ano (2012), e sempre quis falar disso em algum lugar. Então, alguns fatos podem estar obscuros na minha memória, posso trocar algumas bolas e falar umas paradas furadas, e se for realmente caso, por favor, me corrijam. Certo? Certo.

Protagonista verdadeiramente humano

murphy silent hill downpour

Não que os outros não sejam humanos, mas foi uma coisa que fiquei pensando. Talvez pelas limitações gráficas da época, talvez por decisões próprias do time de desenvolvimento, mas o Harry e uma mosca morta não tem muita diferença. Pode reparar. Rejoguei o primeiro Silent Hill recentemente e por vários momentos os diálogos chegam a ser cômicos pela falta de sentimento e expressão que o personagem tem.

“Have you seen a little girl? Short, black hair…” disse o pai desesperado em busca da filha numa cidade desconhecida cheia de bicho esquisito querendo te arrastar pro inferno. Ou o melhor de todos: “… What the hell?!” para cada abominação ou cena com alto teor de nojinho que ele se deparava. Repito, talvez pelo orçamento limitado, decisões dos desenvolvedores, mas não se transmite emoção nenhuma. Entretanto, que fique claro, não deixa de ser uma obra-prima e um dos meus SH favoritos.

Em Downpour, jogamos com Murphy Pendleton, um presidiário que por motivos de spoiler (não vou falar porque quero te incentivar a jogar) vai em cana, e ao ser transferido, passando próximo a Silent Hill o ônibus sofre um acidente, capota e nosso anti-herói não vê outra escolha a não ser entrar na nebulosa cidade para se esconder.

Ao contrário de Travis, Harry, James, Heather e Henry, Murphy me passou a sensação de como é estar numa cidade cheia de aberrações. Me passou o sentimento de como é ter o seu passado não te deixando em paz por um segundo e como seu estilo de vida pode ser tão destrutivo a você e a quem está ao seu redor. Murphy passou por muito mau bocado na vida e Silent Hill estava ali para mostrar o quanto você não pode fugir das consequências de seus atos.

Ele gritava, berrava, verdadeiramente se emocionava. Não só ele, mas como a outra personagem importantíssima da história, Anne Cunningham, também demonstrava o mais puro sentimento de ódio que era refletido nos acontecimentos na cidade. Apesar da falta de outros personagens marcantes, Murphy e Anne sabem compor bem esse cenário.

Otherworld e suas transformações

Quero falar de uma parte específica aqui, embora tenha dito que irei evitar spoilers. Ao se chegar no St. Maria’s Monastery, que funciona como uma espécie de orfanato, existe um teatro bem grande nos alojamentos do lugar onde as crianças apresentavam peças de histórias clássicas. Para resolver o puzzle do local, você deve coletar algumas peças, o roteiro e fazer as coisas funcionarem na ordem que está no script. Realizando as ações na ordem correta (fazer o barulho de chuva, depois o trovão etc) as coisas no local realmente começam a acontecer. O cenário vai se transformando e você realmente está na história de João e Maria, na tenebrosa floresta onde as duas crianças entraram.

A transições de cenário são incríveis e na hora o arrepio foi da cabeça a ponta do pé. Os aplausos de uma plateia sem ninguém, a sonoplastia e a transformação foram fatores que fizeram essa cena ficar marcada na minha memória. Aquela mesma sensação de ser Silent Hill, sabe? Embora a ideia do Void (um vórtex que fica te perseguindo em vários trechos dessas áreas transformadas) e a transformação para o Otherworld em outras localidades não tenha sido bem recebida, o design dessas áreas foi muito bem caprichado.

Downpour-image3

Outra, no começo do jogo, Murphy encara outro Otherworld: um espaço gigante, meio aberto, cheio de grades, com um lugar no centro com um tapete, uma poltrona e uma vitrola tocando, se eu não me engano, Elvis. Não preciso nem dizer que o jogo me ganhou nessa cena, né? De qualquer maneira, senti que não deixou nada a dever aqui. Otherworld de qualidade, aflição de qualidade e criatividade de qualidade.

O enredo e as side-quests

Pensando do lado racional da coisa, concordo que não faz muito sentido você fazer outras atividades paralelas dentro de uma cidade onde tudo quer te matar. Mas usando uma “licença artística” pra coisa, dá um desconto, vai, porque elas são bem legais. Praticamente todas tem uma história de fundo, com algo terrível ou macabro que aconteceu com as pessoas envolvidas. As fitas que te levam pro píer, dos fantasmas no espelho, da vitrola, dos passarinhos, do jogo de sombras… Quem jogou vai se lembrar das mais marcantes. Porque, de fato, é.

Até mesmo aquelas que se finalizam no mesmo local valem a pena serem feitas. É uma adição a experiência e complementam com histórias interessantes – sendo sincero, não me senti incomodado com essas adições. Até porque você pode passar direto, né? Caso sinta-se como eu não me senti, nada te impede de progredir na história. E falando em história…

Qual foi o problema do enredo desse jogo? Teve gente reclamando dele por que? Se você jogou até o final, ligou os pontos e mesmo assim não gostou, poxa… Bem, gosto é gosto. Mas vamos aos fatos que: os personagens são bem construídos, a trama faz sentido e não deixa pontas, o final e as representações do que Murphy significa pra Anne e vice-versa são no mínimo surpreendentes.

ShadowPlay

Não é possível entrar em muitos detalhes sem spoilar, então… Joga aí. É bem daora.

As músicas!

Claro! Não seria um Silent Hill sem as músicas, e Downpour não deixa nada a dever. E SIM, EU SEI que não tem mais o Yamaoka, infelizmente. E eu também sei que ele é O cara e as músicas são únicas. Entretanto, porém, contudo, todavia, Daniel Licht possui um histórico de peso e fez um bom trabalho aqui também.

Silent Hill e seu repertório musical

Além da trilha sonora principal, existem músicas que tocam em uns rádios perdidos ao longo do jogo que possuem canções maravilhosas. Inclusive, foi lá que conheci Anna Ternheim (uma das cantoras com mais músicas ouvidas no meu last.fm) e outros ótimos artistas.

E claro, o tema principal:


Esses foram alguns singelos motivos que eu, redator, acredito que façam Downpour ser um bom Silent Hill. Não o melhor, nem o mais brilhante, nem o mais espetacular. Mas bom, satisfatório para um game que carrega um nome tão importante e que não foi feito pelos mesmos gênios dos games clássicos. E que merecia um reconhecimento bem maior do que os reviews medíocres que recebeu na época.

Concorda? Discorda? Acha que eu falei merda? Bem, diga aí nos comentários!