Não é de hoje que o mercado independente de games deixou de ser um mero nicho. Por mais que ainda exista um grande preconceito ao seu redor, os games indies vem conquistando espaço nesse meio perverso que é o “mundo gamer”.

É curioso notar que grandes franquias entraram em decadência, por conta de um ou dois títulos fracassados, enquanto, correndo pela tangente, grandes títulos, tidos como “menores”, brilham em diversas plataformas.

Celeste não é o primeiro a chegar como surpresa em uma premiação como o The Game Awards. Vimos Hellblade e Journey serem indicados a categorias de peso – Journey que, aliás, fora indicado ao Game of The Year em sua época.

Mas, gostaria de fazer uma correção: se você jogou Celeste, assim como eu, deve saber que não é surpresa nenhuma o game estar onde está. Celeste é muito mais do que uma indicação para completar lacuna. Celeste é ouro.

Desafiador até dizer chega

Em uma época onde tudo é comparado a Dark Souls, Celeste entrega um desafio estrondoso – e que não cabe comparação a franquia da From Software.

O game tem um estilo retro, de plataforma, e traz comandos afiados para abraçar o jogador e convencê-lo de que a jornada da protagonista, Madeline, é possível. Difícil, mas possível. Apenas três comandos irão te guiar até o fim: o pulo, a escalada e o dash.

As fases são repletas de desafios peculiares e o game oferece ao jogador diversas formas de passar pelos desafios. Cada nova etapa te ensina uma habilidade e apresenta um elemento de cenário diferente. O level design de Celeste é fluído e o aprendizado é progressivo e satisfatório. Tudo o que você fez na primeira fase será útil na segunda e o que você aprendeu na segunda, será útil na terceira. A premissa desafiadora é o fio condutor para que você sequer perceba o quão hábil se tornou após morrer centenas de vezes numa mesma fase.

No fim das contas, tudo é recompensador. Tanto a trama, quanto a sensação de dever cumprido, a cada desafio que você conseguir passar.

Profundo e carismático

Na história, Celeste é o nome da montanha que nossa protagonista precisa escalar. O motivo? Nem ela e nem nós sabemos – ao menos até chegarmos no final.

As metáforas na trama se mesclam ao peculiar universo que cerca os NPCs que habitam Celeste. Tudo é muito singelo e poético. Além de parecer muito vivo. Celeste respira através das falas, visuais e de uma trama curiosa que te envolve logo no começo.

O carisma de Madeline, uma menina forte de espírito e com uma personalidade reativa, faz com que você queira saber mais sobre tudo que a cerca. O jogo te instiga a entender o que motiva a grande missão de escalar a montanha impossível. O que é a Montanha Celeste? O que são esses personagens? Por que eles vivem em um lugar tão inóspito?

Assim como em Journey, a viagem é o combustível do game. A recompensa não fica clara no início, mas você quer estar lá para ver. Porém, diferente do belíssimo título da Thatgamecompany, em Celeste as personalidades de cada personagem fazem com que tudo se torne mágico. Desde a vovózinha ranzinza e debochada, até Theo, o coadjuvante fotógrafo, que conta a história e motiva Madeline a lidar com os problemas – e com ela mesma.

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A trama se trata de descobrimento interno e aborda dramas reais. O nível de dificuldade das fases é apenas uma forma de mostrar, metaforicamente, o quão difícil é, para Madeline, enfrentar a sua vida. E isso não é muito diferente da vida real. Celeste fala de todos nós.

Por que Celeste?

Não seria a primeira vez que um título “surpreendente” venceria o jogo do ano. No passado, The Walking Dead, da Telltale, arrematou a premiação, desbancando fortes concorrentes.

Em um ano repleto de games poderosos, como God of War e Red Dead Redemption II, Celeste se destaca por entregar uma jornada única e sincera. Se vimos nos concorrentes um conveniente avanço tecnológico (Spider-Man), inovações internas (God of War) e um apanhado de funcionalidades adversas, agrupadas para formar um único gameplay (Red Dead), em Celeste temos algo diferente de tudo. Temos uma mensagem de que não é necessário ser deslumbrante para ser impressionante.

Videogames também contam histórias, meu amigo. E Celeste é a melhor e mais tocante de 2018.