Em uma época que as pessoas esquecem facilmente seus jogos favoritos, substituindo por novos jogos com gráficos mais poderosos, é difícil apontar um game e falar “Esse daí é eterno, hein?”. A necessidade dos gamers modernos de sentir em suas mãos um produto com potencial e desempenho elevados ao extremo acaba, por muitas vezes, encobrindo outros sentimentos que os jogos são capazes de trazer. Infelizmente.

Quando Journey foi listado nos jogos grátis da PS Plus, eu logo pensei que desta vez não deixaria de jogá-lo. Muito elogiado nos tempos do PlayStation 3, o indie causou uma belíssima impressão, foi premiado com louvor e até hoje é tratado como uma joia por quase todo jogador que o experimentou. Na época de seu lançamento, eu cheguei a testar a demo, mas por ter muitos jogos acumulados para jogar acabei não pegando a versão completa, elegi prioridades.

E eu nunca estive tão enganado.

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A identificação: Um personagem solitário em um mundo vazio

De cara, o game impressiona pela beleza. Diferente de muitos jogos, vemos um gráfico mais lúdico e que consegue expressar muito bem tudo que ele precisa passar. Journey parece uma obra de arte. Algo que impressiona por passar uma profundidade diferente dos padrões.

No game, você entra na pele de um personagem sem nome, vagando por um imenso deserto em busca do desconhecido. Tudo é muito intuitivo, sem tutoriais ou placas indicativas, você viaja pelo deserto procurando qualquer coisa que pareça ter algum significado. Conforme você progride, começa a compreender um pouco mais do que se trata a sua “jornada”. Em busca de uma misteriosa luz no topo de uma grande montanha e guiado por um mentor misterioso, você acaba encontrando um companheiro (um jogador aleatório, encontrado online) que passa a viajar ao seu lado, podendo inclusive estar com você até o final do jogo. E isso, acredito, é fantástico.

A partir desse ponto, o jogo começa a ganhar uma dimensão diferente. Sem que você perceba, aquele seu companheiro desconhecido se torna importante para você. Você não precisa dele para completar os puzzles que o jogo te apresenta, não precisa dele para desbravar o deserto e chegar até o fim da história. Você precisa dele apenas por um motivo: lidar com a solidão.

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A sensibilidade que às vezes precisamos experimentar

Journey tem um cenário que te passa a sensação de se estar só. A trilha sonora e tudo à sua volta faz com que você se sinta em um mundo vazio, onde só a história contada em paredes mágicas façam com que você acredite que um dia alguém passou por ali.

A partir do momento que você passa a jogar acompanhado de um jogador aleatório, que não é seu amigo e não fala com você pelo headset ou por texto, faz com que um laço se crie e você o ajude a prosseguir na jornada. É uma sensação difícil de se colocar em palavras, mas a companhia em Journey faz com que o medo do desconhecido se esconda por debaixo do seu desejo de prosseguir e chegar ao objetivo — mesmo que, durante boa parte do jogo, você não compreenda de fato o que é o objetivo. Em muitos momentos, interagi com o personagem do meu “companheiro” da maneira que deu, seja emitindo uma luz, voando perto dele ou algo do tipo. Por incrível que pareça, o simples parecia ser o suficiente para que entendêssemos um ao outro.

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Journey te ensina que a jornada pode ser árdua, mas se você não estiver sozinho as coisas ficam mais fáceis. É um paralelo com a vida muito bem traçado, expressando em forma de arte e de um gameplay extremamente agradável o que nós deveríamos levar para nossas vidas.  É tudo muito sensível, suave e instigante ao mesmo tempo.

Jogar este jogo anos depois de seu lançamento me fez lamentar por não tê-lo jogado antes, mas ao terminá-lo agradeci por ele ter vindo em boa hora. Às vezes, de onde menos esperamos, tiramos uma grande lição de vida. E para os que se perguntam se ainda fazem jogos eternos, a resposta pode estar bem aqui neste artigo.