E não, não estou me referindo a Hatred.

Se por um lado, criava-se muita polêmica apenas por conta do sangue em Mortal Kombat há 24 anos, hoje temos Kill The Faggot – um título de PC cujo objetivo é matar homossexuais e transgêneros. Ao fazer isso, além de ser recompensado com pontos, o jogador ouvirá frases como “Transmissor da AIDS eliminado” e coisas do tipo. Sinceramente, vou tentar me referir aos elementos do jogo o mínimo possível, pois não quero baixar o nível do texto.

Segundo o site Ars Technica, KTF foi disponibilizado no Steam Greenlight no início deste mês de maio, mas removido cerca de duas horas depois, devido às reclamações em massa dos jogadores. Entretanto, essas duas horas de disponibilidade foram mais do que o suficiente para que o título fosse experimentado e gerado repercussão – muito negativa, por sinal – na mídia. Essa atrocidade foi desenvolvida por Randall Herman, que clama ser um desenvolvedor de games, skatista (?) e patrocinador de uma linha de calçados cristã (?!). Herman ainda se desculpou, não pela polêmica do game, mas sim pela qualidade deste, afirmando que KTF “foi desenvolvido em poucos dias”.

No passado, o tal do desenvolvedor tentou garantir fundos para um projeto de fabricar um “tênis cristão” que, de acordo com ele, tinha a função de “Espalhar a palavra e os ensinamentos de Jesus Cristo por meio de calçados de qualidade”. Eu sei que isso pode parecer meio fora de contexto com o tema do artigo, mas é só uma prova de como existem pessoas patéticas na indústria.

O jogador é recompensado ao matar homossexuais e transgêneros; punido por matar heterossexuais.

O jogador é recompensado ao matar homossexuais e transgêneros; punido por matar heterossexuais.

Quando questionado sobre o jogo, ele simplesmente disse: “Esse tipo de gente que acha que você é homofóbico, detestável e intolerante faz de tudo para te destruir de todas as formas possíveis. Então, eu decidi seguir o caminho temido pela maioria das desenvolvedoras: fazer o jogo mais ofensivo possível para esse tipo de gente, para provar algo a esses idiotas”.

Bem, acredito que a única coisa que ele provou foi a própria ignorância. Em uma era na qual a luta pelos direitos das minorias é algo que está caminhando aos poucos (embora que ainda tenham muitas dificuldades pelo caminho) por meio até dos games em alguns casos, um jogo como KTF – que tem como base um princípio retrógrado como esse – é exatamente o que não precisamos no mercado; um software desenvolvido sem a menor noção dos efeitos negativos que este produziria na mídia.

Antes de escrever isso, andei lendo sobre o caso e ainda vi pessoas dizendo coisas do tipo “Ele é o desenvolvedor, se ele é homofóbico, essa é a opinião dele. Não gostou, é só não jogar”. Na verdade, não. Isso aí tá mais pra uma materialização do discurso de ódio do que liberdade de expressão. E tem quem se ofenda (com razão), então não é algo que deve ser simplesmente ignorado sem mais nem menos.

Jim Sterling jogou o game e compartilhou suas impressões sobre. Confira:

https://www.youtube.com/watch?v=W-p7mOl1xDE

Aquela cena polêmica de Call of Duty: Modern Warfare 2, apesar de desnecessária, ainda estava inserida em um contexto. Até hoje, Grand Theft Auto causa problemas pela violência gerada pela liberdade que o game dá ao jogador. Entretanto, aqui o caso é diferente: você é motivado e recompensado por realizar um tipo de violência. É o único objetivo do jogo. Não há uma história, não há um motivo. Há apenas a escolha de cooperar com a ideia absurda proposta por ele. Aliás, estou usando os termos “game” e “jogo” erroneamente o tempo inteiro neste texto. Isso não é um game de fato, mas sim uma abominação do entretenimento digital. Kill The Faggot é uma brincadeira – de muito mal gosto, por sinal.