O cenário do esporte eletrônico não começou a ser construído recentemente. Há mais de uma década existem torneios, competições e cada vez mais dinheiro envolvido nesta indústria que só cresce e em poucos anos deve ter mais fãs do que a NHL (liga americana de hóquei), segundo o presidente da Major League Gaming.

Nos últimos anos, dois jogos estão tendo um crescimento acima do normal nesse cenário competitivo: League of Legends e DOTA. Correndo por fora, outros jogos estão conseguindo chegar à elite desse esporte, e o maior exemplo é Counter-Strike: Global Offensive. A Valve está investindo pesado e os campeonatos são cada vez mais frequentes, cada vez valem mais dinheiro e encantam mais pessoas, incluindo quem vos fala. Mas algo muito grande está ameaçando o crescimento do jogo: os próprios jogadores.

Há poucos dias, duas equipes foram desclassificadas do maior torneio de CS:GO do mundo, o DreamHack. O motivo? Pasmem, uso de cheats. Três jogadores profissionais que jogavam em times extremamente expressivos no cenário de Counter-Strike foram pegos usando programas ilegais, colocando em dúvida suas habilidades, pois o cheat poderia ser usado tanto em partidas online quanto em partidas presenciais, através da nuvem.

Não bastasse esse terrível escândalo, nas quartas de finais dessa mesma competição, dois times utilizaram bugs no mapa para atingirem os adversários sem que os mesmos tivessem chance de saber de onde os tiros estavam vindo. Um dos times, LDLC, apenas tentou fazer tal uso, mas não tinha total domínio do bug. O outro, fnatic, considerado o segundo maior time de CS:GO do mundo, usou e abusou dessa brecha, conseguindo virar uma partida que estava 3-13, marcando 16 pontos, 13 deles consecutivos.

A pior parte de tudo isso: os jogadores e os narradores (!) estavam adorando. O próximo vídeo abaixo mostra a transmissão ao vivo da partida. Ninguém, além dos integrantes da fnatic, conhecia tal bug, quando os jogadores o executaram pela primeira vez, o comentarista vibrou: “isto é lindo!”, logo depois o narrador fala com animação: “estamos vendo pronax [jogador da fnatic] sendo um gênio”. Ao fundo, os espectadores vão à loucura, como se aquilo fosse legítimo ou genuinamente genial. É uma trapaça, contra as regras e acima de tudo, contra o próprio esporte.

A equipe da DreamHack deixou a partida acontecer com aquele bug sendo repetido diversas vezes, e ao final do confronto, um entrevistador, claramente incomodado com a atitude da equipe, diz a um dos jogadores da fnatic  “isso me deixou completamente triste” e aproveita para perguntar “você acha isso justo?”, o jogador responde, com ar de deboche: “eu sinto muito pelo pessoal da LDLC  [equipe adversária], eles jogaram melhor que nós, mas nós conhecíamos o mapa melhor”. Ou seja, um jogador profissional considera o uso de um bug que te permite ver e atirar através da parede algo de quem “conhece o mapa”.

Final da história: a DreamHack optou por refazer a partida, mas a fnatic  desistiu do evento, classificando a LDLC  para a semifinal.

Esses dois escândalos que aconteceram muito recentemente começam a fragilizar o cenário competitivo de CS:GO. O uso de maneiras ilegais para ganhar partidas a qualquer custo tira a confiança dos espectadores, fazendo com que os patrocinadores também fiquem desconfiados e céticos, afinal, que empresa quer ter o nome associado a um evento cheio de polêmicas? O eSport deixou de ser brincadeira há muito tempo e se acontecimentos desse tipo continuarem a ocorrer com frequência, é possível que o esporte sofra uma crise, assim como o futebol americano sofreu entre os anos 1905 e 1920, quando a falta de segurança dos jogadores afastou consideravelmente o público.

Por enquanto, nos resta torcer para que futuros campeonatos não sofram tanto com a irresponsabilidade de seus jogadores e outros envolvidos.