Continuando a revisitar os grandes jogos lançados no ano de 2018, que concorrem na categoria “Jogo do Ano” no The Game Awards, chegou o momento de falar de um dos grandes favoritos ao título, God of War, exclusivo do PS4 e produzido pela Santa Monica Studios.

O primeiro jogo da franquia estreou em março de 2005 no PlayStation 2 e, de lá para cá, acompanhamos a sangrenta trajetória do protagonista Kratos, que buscava se vingar dos deuses do Olimpo com suas inconfundíveis Lâminas do Caos. Muitos anos se passaram desde o lançamento de God of War III e, ao longo desse período, é seguro dizer que a franquia God of War se consolidou como uma das mais icônicas já lançadas nos consoles da Sony.

Finalmente 2018 nos presenteou com a chegada de Kratos à geração mais recente de consoles, com uma nova ambientação, uma nova mitologia de apoio e também novas escolhas em relação à jogabilidade – e, felizmente, a espera parece ter valido a pena. Revisitamos agora algumas das razões que nos fazem acreditar que God of War mereça ser o Jogo do Ano de 2018.

A jornada do herói

Uma das grandes sacadas de God of War é exatamente a maneira como o jogo nos apresenta Kratos. Não há grandes explicações – ele está mais velho, tem um novo filho, Atreus, e acaba de perder sua esposa. A premissa é bastante simples: sua esposa desejava ter suas cinzas espalhadas na montanha mais alta da região. Mas, como nada costuma ser fácil na jornada de Kratos, um visitante inesperado aparece atrapalhando os planos do espartano, e o jogo, que até então tinha um tom melancólico, explode numa batalha de tirar o fôlego e nos mostra que os adversários daquele novo mundo não estão para brincadeira.

Uma das coisas mais bacanas é que o jogo mostra Kratos como estrangeiro numa terra desconhecida – assim como nós, jogadores, também somos – e todas as novidades vão sendo introduzidas gradativamente conforme pai e filho vão se aventurando por Midgard. Kratos não consegue ler as runas, tampouco entende dos conflitos daquela outra mitologia e, nesses momentos, sua relação com Atreus, que faz o papel de intérprete, é fundamental.

Também é muito inteligente a maneira como o mundo é construído. Um ambiente que a princípio quase chega a ser claustrofóbico, com várias limitações de até onde se pode ir, vai se ampliando aos poucos e revelando novas camadas. Depois de certo ponto da história, é possível revisitar esses lugares e ver como todos estão interligados, e o mapa, que a princípio parecia reduzido, vai revelando toda sua grandeza e complexidade.

O ritmo das viagens também dá o tom da narrativa: boa parte do transporte é feito em canoas, e o precioso tempo gasto navegando é aproveitado com diálogos importantes entre pai e filho e ainda com as narrações de Mimir, que também atua na instrução de Kratos (e dos jogadores) a respeito dos conflitos entre as divindades e seres daquela terra misteriosa.

Pai e filho

O ponto alto do jogo, no entanto, está na sensibilidade que a Santa Monica utilizou para mostrar o envelhecimento – e amadurecimento – de Kratos. A realidade presente é outra, ele está mais velho, abdicou de suas Lâminas do Caos e sua arma agora é um machado que, apesar de poderoso, deixa o personagem consideravelmente mais vulnerável e precisa ser utilizado de maneira bem mais consciente.  Alguns poucos fãs mais radicais podem até ter estranhado, mas o fato é que Kratos, apesar dos poderes divinos, optou por levar uma vida humana ao lado de seu filho.

É muito satisfatório ver que há espaço para grandes franquias se reinventarem a amadurecerem juntamente com o seu público. Boa parte de nós jogou os primeiros títulos da franquia na nossa pré-adolescência, e quantos agora já não estão na faixa dos 30 anos, estão casados e talvez até tenham seus próprios filhos? Por mais que tudo esteja envolto por uma significativa camada de fantasia, o conflito que está no cerne de God of War é um que todos, se já não passaram, ainda irão passar: o envelhecimento, as responsabilidades crescentes e um amadurecimento que nos faz reconhecer que não somos deuses, tampouco somos eternos.

A relação entre pai e filho é o que dá o tom de God of War: você irá amar e sentir raiva de Atreus, assim como em qualquer relação familiar. Mas a dinâmica entre os dois personagens é o que faz tudo ser mais interessante: eles precisam aprender a conviver um com o outro, expressar seus sentimentos e trabalhar em parceria para conseguir superar os inúmeros obstáculos que vão aparecendo ao longo de sua jornada. Felizmente, a maneira com que Atreus foi construída foi bastante apropriada – ele nunca será um peso morto, ou um obstáculo à progressão do jogo. Pelo contrário: apesar de ser controlado pela IA, há inúmeras opções para determinar o comportamento do personagem e esse processo, de aprender e dominar a dinâmica entre pai e filho durante dos combates, é uma das coisas mais satisfatórias e recompensadoras dessa nova experiência.

Dessa forma, com profundidade em seus personagens, uma narrativa densa que vai se ampliando gradativamente (culminando na grande revelação do final do jogo) e visuais estonteantes, é seguro dizer que God of War não apenas foi bem-sucedido na missão de reinventar a franquia, como também dá o tom do que podemos esperar dos próximos lançamentos na indústria de jogos digitais como um todo. Saindo vitorioso ou não, sem dúvidas God of War já marcou seu nome na história dos videogames e o relato da viagem de Kratos e Atreus será sempre lembrado como um dos melhores que já tivemos a oportunidade de presenciar.