A imersão em um jogo de vídeo game ocorre por uma série de fatores. Seu enredo, jogabilidade, trilha sonora, gráficos e mais uma porção de outros detalhes que contribuem para o jogador se sentir parte daquele mundo. Entretanto, existe um outro fator crucial nesse quesito da imersão – e não só do fator imersão, mas outros bem mais relevantes que irei tratar ao longo do texto -, um que você se sente representado pelo protagonista a sua frente.

Isso é relativamente mais fácil em jogos MMO/RPG onde fornecem um sistema de criação de personagem, mas e quando já é predefinido? E quando… Você não se encaixa ou não sente a menor simpatia daquele amontado de pixels fazendo as coisas na sua tela? Ou quando o sistema do game só permite romances héteros, interações clichés, sexualização de personagens femininos, reforçamento de padrões de beleza e tudo aquilo que 24h/7 dias por semana a mídia continua reforçando exaustivamente por existir dentro de um sistema que foi construído a base de machismo, preconceito e fobias?

A cultura do ódio na comunidade dos jogos

Cenário que custa a mudar, aos poucos mostra relativos avanços nesse ponto. Embora sempre tivesse existido na história dos games, personagens LGBT, negros ou simplesmente fora do padrão nunca foram destaque. E toda essa linha segue uma simples regra: baseado na cultura. Uma cultura onde a maioria dita as regras, a chance de uma minoria se sentir representada são pouquíssimas, e é justamente o que acontece. Como disse no início do parágrafo: embora essa realidade esteja lentamente demonstrando avanços, a equidade está longe de acontecer.

As séries Mass Effect e Dragon Age, da BioWare, souberam tratar esses temas com respeito e cuidado, ao introduzir outros elementos que problematizam a discriminação e preconceito. Em ambas as franquias é possível ter relacionamentos homoafetivos, embora apenas os jogos mais recentes dão um espaço mais amplo para a exploração dessa temática.
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E não é exagero meu não. É só ter um mínimo de discernimento e ver como a indústria se comporta quando o assunto é jogos de alto orçamento, com o famoso algoritmo: homem, branco, meia idade e com barba. Não preciso nem ficar citando exemplos porque já é bem notório quais jogos trazem esse tipo de realidade. “Mas tem um monte de jogo de peso com protagonista mulher!” Sim, tem. Mas mesmo que seja um “monte”, em comparação ainda não abrange a quantidade de jogos com os fatores dito acima. E sendo bem franco, eles não fazem mais do que a obrigação de dar, pelo menos, uma variada com uma protagonista mulher.

Novamente, um dos fatores que citei em artigos passados se torna presente aqui: empatia. Empatia por quem luta para ser representado, empatia por quem luta. É um sistema rígido, regado por centenas de anos de preconceito que realmente é difícil de se enxergar quando você sempre se encaixou na classe da maioria. Esse é um debate social e político que deve ser trazido para uma mídia que hoje é maior do que o próprio cinema. São games que são jogados por milhares de pessoas, e muitas delas não são representadas (ou muito mal representadas) dentro de um universo que as possibilidades são quase ilimitadas.

Na DLC “Left Behind”, de The Last of Us, é contada uma breve história de romance entre Ellie e sua amiga Riley, mostrando um background emocionante do passado da companheira de Joel.

Left Behind

Quando lutamos por um espaço que mostre representatividade, demonstramos a importância desta num espaço que deve ser levado em conta. A quebra de estereótipos é outro ponto a ser tocado, já que muitos destes são fundados na mesma cultura exercida pelas grandes mídias. Perceba que não estou me atrelando a ficar citando casos específicos ou únicos, porque aqui a lista seria grande. Tampouco abordei todos os temas que eu gostaria, mas quis deixar essa ideia o mais abrangente possível. Ao longo do texto, fui colocando exemplos mais específicos.

Pode ser difícil, mas não impossível. A empatia deve partir de cada um individualmente para o coletivo sair ganhando. Questione, abra a cabeça. Exerça um pouco da consideração ao próximo que pode estar bem diferente da sua realidade em questões de representatividade.

Por sua vez, também é preciso problematizar as abordagens de certos desenvolvedores, como é o caso da personagem Poison, lutadora nos games Final Fight e Street Fighter. Embora os criadores deixassem a questão sobre seu gênero bem ambígua, a sexualização da personagem é algo bem recorrente desde o início. E, cá entre nós, custava alguma coisa terem botado uma roupa um pouco menos sexualizada na Laura, a nova personagem brasileira em Street Fighter V?

Poison

E, talvez, um dos pontos mais importantes: se você for dentro do padrão, lute, mas não tome, ocupe ou iniba a voz de quem passou e passa por essas realidades diferentes da sua. Eu posso me fazer presente, mas jamais tentar tomar essa luta como se fosse minha, e nunca poderei. Você sendo branco, não tome a voz de um negro. Você sendo hétero/cis, não silencie gays, bi, trans ou não-binários. Caso contrário, estará fazendo um desserviço.

E sim, até nos jogos.