Em 2012 as coisas pareciam mais simples. Tinha acabado de entrar na faculdade, minha rotina era diferente e meu senso crítico sobre as coisas era consideravelmente pior do que tenho hoje. Fã da saga Assassin’s Creed desde o lançamento do Brotherhood, em 2010, o anúncio do jogo que seria o final da história de Desmond e iria nos transportar para um contexto tão diferente da renascença italiana jogou minha expectativa lá pro alto. Não só a minha, já que Assassin’s Creed 3 foi um dos jogos mais esperados pelos fãs após a ótima saga de Ezio Auditore.

Para a decepção de muitos, AC 3 foi uma bagunça. De bugs, de gameplay, de missões e de hype fora de proporção para um jogo que, no final das contas, foi muito mal aproveitado. Na época, eu não me importei, até tinha gostado bastante. Platiná-lo no meu PS3 foi divertido, ainda havia multiplayer e toda aquela coisa. Entretanto, eu não tinha muitas lembranças do jogo em si, apenas momentos clássicos de frustração como a perseguição a Charles Lee em uma das últimas missões.

Quase sete anos depois, após ter zerado e feito 100% em todas as sequências e platinado o jogo (novamente), na versão remasterizada, eu me questionei: “Como eu não lembrava que esse jogo era tão estragado?”

A saga de Connor sofre de um punhado de decisões ruins de design e gameplay – algo que com certeza não seria aliviado numa remasterização. Haytham, o templário, pai de Connor e um dos antagonistas, consegue ser um personagem infinitamente mais interessante que o filho, apesar de possuir um dos mais demorados prólogos de toda a franquia. Quando jogamos com Connor, vem a sensação de que o prólogo era mais interessante. Estoico, ingênuo e propositalmente sem carisma, o nativo americano é um grande potencial desperdiçado, tanto pelo contexto cultural quanto pelas nobres motivações do personagem em defender sua tribo.

O jogo tenta a todo momento oferecer algo que se passa por melhorias e evolução, como o pequeno povoado na homestead e as quests dos habitantes, te dando a opção de conhecê-los e criar um senso de comunidade. Tudo isso vai por água a baixo quando todas as ações (dos personagens) são lineares e padronizadas, como robozinhos programados para ignorar sua presença e continuar suas tarefas diárias. Não há vida, nem mesmo a tentativa de simulação de uma.

Remasterização de problemas

Uma das coisas que me deixou mais chocado foi a presença de bugs da versão original. Os mesmos problemas de personagem desaparecendo, quests sumindo no mapa, problemas de mobilidade e outros detalhes. Como eu disse antes, eu não espero uma total remediação dos problemas, nem mesmo das péssimas escolhas de design (algo que só um remake ao nível de RE2 poderia consertar) mas sim uma revisão de questões técnicas. Quando o mesmo erro de sete anos atrás reaparece na versão mais nova – mas com uma nova camada de tinta por cima – é um sinal bem preocupante.

Apesar de todos os problemas, houveram melhorias em aspectos gráficos e alguns ajustes que foram qualidade de vida. Todo o sistema de iluminação foi ajustado, texturas agora são em alta definição e a perseguição a Charles Lee (assim como outros objetivos opcionais de várias outras missões), mencionada no começo do texto, foi refinada para ser menos frustrante. Caso não se importe com uma singela queda na qualidade das texturas faciais e dos cabelos de alguns personagens.

No final das contas, a remasterização não conseguiu aliviar vários dos sérios problemas que Assassin’s Creed 3 possui, seja em sua história, gameplay ou nos personagens. É uma pincelada de tinta fresca em um produto com uma série de defeitos que ainda conseguem encontrar certo brilho, mas não o bastante para se revitalizar para os padrões de hoje. Foi um jogo que serviu de base para um acervo de melhorias significativas nos jogos posteriores, como as missões navais e sidequests – coisas que o Black Flag fez infinitamente melhor.

Se você procura por um ótimo motivo para reviver as aventuras de Connor, esse remaster faz um trabalho apenas ok, sem se preocupar em mitigar problemas mais críticos. Se você gostou do jogo, vai ser basicamente a mesma experiência. Se não gostou e quer dar uma chance, é melhor dar uma olhada em outros jogos da franquia.

Ainda no mesmo pacote…

Não é só de Connor que vive esse remaster. A história de Aveline de Grandpé também está presente no pacote em Assassin’s Creed Liberation HD. Sendo o remaster da versão de PS3 e não do PS Vita, o destaque gráfico é muito mais notável. As texturas estão mais limpas, a iluminação decente e o modelo dos personagens aparenta ter uma significativa melhora. A experiência, no geral, consegue ser menos frustrante que a do terceiro jogo, mesmo com um arraial de missões repetitivas e um desfecho narrativo bem duvidoso.

É um jogo consideravelmente menor, com três áreas centrais: Nova Orleans, o pântano e México (especificamente Chichen Itza). Em apenas 9 sequências, Aveline busca destrinchar o plano dos templários em manter colônias de escravos e o comércio lucrativo por trás disso, além de tentar resolver conflitos internos e com seu mentor, Agaté. Liberation não faz muito pela franquia, mas ainda sim é uma adição decente ao pacote – além de ser bem legal ver o jogo de Aveline ser mais disponível atualmente.

A representação do Brasil em AC 3 também é uma das piores que já vi num videogame. NPCs com sotaque de português de Portugal, estereótipos carregadíssmos, erros ortográficos e uma penca de outros detalhes que mais pareciam uma paródia do que uma representação.

Foi notório que a idealização desse remaster teve como propósito promover a venda do Passe de Temporada de Assassin’s Creed Odyssey, sendo mais um adicional no gigantesco pacote que a experiência de Odyssey propõe.

Eu não sei exatamente o que eu esperava. Talvez minha memória tenha sido mais generosa de ainda possuir boas lembranças do 3. Entretanto, rejogá-lo atualmente só reforçou ainda mais minha posição de como essa franquia evoluiu para melhor, apesar dos deslizes ao longo do caminho.