Em um passado não muito distante, uma versão ainda mais jovem de mim hesitava em frente à TV enquanto jogava Resident Evil. Ainda relutante, abro a porta seguinte, mas felizmente me deparo com uma save room. Aquela música começa a tocar e o alívio é palpável. Salvo o jogo. Abro o mapa, planejo a melhor rota a seguir. No caminho, enfrento inimigos e me atrapalho todo. Desperdiço munição, mas encontro o item que procurava. Retorno à save room e me surpreendo com as munições e ervas que gastei para tão pouco progresso. Salvo de novo.

Tenho certeza que esse loop de gameplay é muito conhecido por quem já experimentou os primeiros Resident Evil – a parte de dar tudo errado e desperdiçar munição é praticamente um ritual de iniciação para qualquer jogador. Quando me dei conta dessa situação toda se repetindo em Resident Evil 7, percebi que estávamos, finalmente, diante do “retorno às origens” tão esperado. A essa altura do campeonato, tenho que admitir que esse pensamento já me parecia um tanto utópico.

Diferente, mas familiar

Resident Evil é uma franquia com muitos altos e baixos. Quando a fórmula clássica começou a mostrar sinais de cansaço, fomos apresentados a Resident Evil 4, que criou um novo padrão para jogos de tiro em terceira pessoa e tornou a franquia mais relevante que nunca.

Resident Evil 7, à primeira vista, pode parecer mais um marco; uma fronteira que inicia uma nova era, mas a impressão que tive é de que é uma modernização da fórmula clássica. O resultado não é sempre certeiro, mas posso afirmar que a experiência como um todo é fantástica. E sim, tem muito a cara de um Resident Evil, ao contrário do que muitos temiam.

Você é Ethan Winters, um homem que perdeu sua esposa, Mia Winters, há mais de 2 anos – ou pelo menos era nisso que acreditava, até receber um email dela, pedindo para que o protagonista a visitasse em uma casa em Louisiana, no sul dos Estados Unidos. As coisas dão terrivelmente errado e, se você já acompanhou qualquer material promocional de Resident Evil 7, já deve saber o que acontece: Ethan se torna uma vítima dos Bakers, uma família que age de forma estranha e está claramente infectada de alguma forma. Caberá a você encontrar Mia, enfrentar os membros dessa família e fugir desse pesadelo.

A exploração e a descoberta são dois dos maiores méritos do game, e existe um motivo para isso: o level design é sublime. Infelizmente, a propriedade dos Baker não é tão extensa quanto locais clássicos da série, como a labiríntica mansão Spencer. No entanto, tenta compensar por ser ocupada por diversas construções, como a casa principal da família, uma residência abandonada e uma estufa escura e ameaçadora. Esses e outros locais são interconectados de forma inteligente, o que torna a travessia pelo mapa descomplicada.

Essa preocupação com o layout do mapa é mais que necessária, pois o backtracking (voltar a áreas previamente exploradas) se faz muito presente aqui. Não há nada mais gratificante que encontrar a chave da porta que você tentou abrir lá no começo, o que dá aquela sensação de “ahá, agora já sei o que fazer”. Na maioria das vezes, isso será necessário para progredir no enredo, mas algumas salas paralelas que só podem ser acessadas mais tarde guardam itens adicionais preciosos. Tudo isso se mantém forte, salvo pelas últimas horas do jogo, em que a exploração é um pouco deixada de lado e tudo começa a ficar um pouco arrastado. Os cenários grandes dão lugar a algumas seções lineares e, quando a exploração é incentivada novamente, é em um ambiente não tão interessante quanto os anteriores.

Controversamente, é nesse momento que a história toma um rumo mais intrigante. Quando os principais mistérios foram revelados, eu não pude deixar de achar algumas partes da história um pouco bobas, mas no geral o enredo é competente e está no nível de outros jogos da série. Por fim, uma das grandes pontas soltas do final será esclarecida no DLC Not A Hero, que chegará gratuitamente a todos os que possuem o jogo base.

Se antes os controles de tanque e a câmera fixa eram a solução para evocar tensão e vulnerabilidade, agora tudo isso é transmitido com sucesso sob a forma da câmera em primeira pessoa. Para acentuar isso ainda mais, Ethan é um homem comum, então não espere que ele tenha metade da agilidade ou força dos protagonistas de Resident Evil. Existe um sistema de upgrades, mas é um tanto rudimentar, permitindo que você melhore elementos básicos, como vida máxima ou velocidade de recarga – nada que vá transformar seu personagem em um super-herói. Dessa vez, dar mortais para desviar de lasers ou empurrar pedras gigantes à base do soco são coisas que permanecerão nos Resident Evil do passado.

Por esses motivos, Ethan não é um mestre do combate. Mas não quer dizer que seja inofensivo, pois diversos armamentos estarão à sua espera. Armas de fogo são úteis, porém bastante imprecisas se você disparar sem intervalos de tempo. No entanto, ir pro fight com armas brancas é quase um pedido de morte, então é recomendado utilizá-las apenas como última opção. Caso não haja espaço ou tempo para escapar de um ataque, é possível amortecer o impacto se protegendo com os seus braços, o que compromete sua velocidade e campo de visão no processo. Ainda assim, esse comando salvou minha vida muitas vezes, portanto eu diria que é uma adição interessante e muito bem-vinda.

Colocar o jogador no controle de um protagonista “despreparado” em um survival horror é uma ideia boa, porém sua personalidade e dublagem não condizem com isso às vezes. Ethan passa por diversos horrores com os Bakers e é forçado a fazer muitas coisas que fariam uma pessoa comum surtar. Porém, suas reações são fracas e quando algo o surpreende, sua dublagem não convence.

Como sempre, atirar na cabeça dos infectados ainda é a melhor tática em 90% dos casos, mas as batalhas perdem a tensão depois de um tempo, uma vez que existe pouca variedade nas criaturas que você vai encontrar. A repetição de inimigos acaba tornando os confrontos previsíveis, pois seus padrões de movimento são facilmente decorados muito antes de terminar o jogo. Sempre existe aquele frio na barriga de um inimigo pular da janela, é claro, mas parte do medo se constrói na proposta de encarar ameaças desconhecidas, o que acabou ficando em falta aqui.

Mas nesse quesito, os Bakers dão um show, especialmente Jack – o “chefe” da família – e sua esposa, Marguerite. Em momentos bem específicos, eles rondam pelo local que você está, resmungando frases com um sotaque forte do sul dos Estados Unidos. Em silêncio, é possível escutar a madeira rangendo com seus passos pesados. Com isso, pode-se ter uma ideia de onde seu perseguidor está e, assim, planejar o melhor curso de ação: esperar escondido, tentar fugir na surdina ou enfrentá-lo – o que é muito possível com os equipamentos certos.

Esse sou eu jogando.

Em momentos relacionados à história, no entanto, não é possível evitar o conflito contra os membros da família. São batalhas memoráveis e incríveis, não só pela insanidade (e a carnificina exagerada), mas também por oferecem um certo grau de dinamismo, o que eu apreciei bastante. Não posso soltar spoilers, mas a primeira batalha contra um dos Bakers teve um dos momentos mais “oh, shit” que eu já tive enquanto jogava videogames.

A atmosfera tensa de Resident Evil 7 é rica por todos esses motivos, mas algo que é indiscutivelmente crucial é a qualidade gráfica do título. A modelagem do cenário pode parecer um pouco simples às vezes, mas a iluminação do jogo é incrível e o faz parecer fotorrealista em muitos momentos. A maneira como a luz reflete em cada objeto de forma precisa é algo que simplesmente convence.

Isso só foi possível graças à nova RE Engine e da direção de arte, que segue por uma via muito mais realista do que nos games passados. Diferente dos designs estilizados de Chris ou Leon, agora os personagens são mais fieis, já que foram criados a partir do processo de fotogrametria de atores reais. Assim como o cenário, eles não são extremamente bem trabalhados visualmente, mas a qualidade de suas animações surpreende.

A verdade é que qualquer uma dessas deficiências gráficas pode ser perdoada e atribuída ao fato de que Resident Evil 7 é um game com suporte ao VR, e como tal, deve cumprir um determinado nível de desempenho. Isso resultou em um jogo que roda sem quaisquer problemas de performance mesmo quando jogado pela TV. Se eu fosse reclamar de algo na questão visual, seria o fato de que, às vezes, algumas partes do corpo de um inimigo atravessam a porta antes dele abri-la ou algumas texturas que demoram pra carregar.

Outros elementos retornam intocados, como os conhecidos files, que explicam pontos importantes da história e referenciam eventos do passado da série. Os puzzles, apesar de mais elaborados que nos Resident Evil mais recentes, estão em pouca quantidade e não são tão interessantes quanto esperado – com uma ou outra exceção.

As já mencionadas save rooms também estão de volta, inclusive com aquela música relaxante de “meudeusdocéu, tô seguro, tô vivo, amém” dos outros jogos. Em qualquer uma delas, você encontrará um toca-fitas para salvar o seu progresso (embora tenham alguns checkpoints no modo Normal e Fácil) e a famigerada Item Box, para guardar itens.

Por falar nisso, o gerenciamento de itens é importante, uma vez que o seu inventário é limitado e é imprescindível que você carregue alguns bens, como ervas e pólvora. Apesar de serem encontrados com uma relativa facilidade, ambos não têm utilidade por si só e são puramente matérias-primas. Para adquirir os primeiros socorros ou a munição a partir de tais itens base, é necessário combiná-los com um fluído químico – e esse sim é encontrado com certa escassez. Portanto, além desse material não ser frequente, você deverá escolher se o combinará com a erva ou a pólvora. Isso não só cria diversos momentos de dilema, como também obriga que você carregue os materiais necessários o tempo todo.

Um Resident Evil legítimo

Resident Evil 7 foi anunciado como um título em primeira pessoa, fazendo com que a internet explodisse duas vezes seguidas e se questionasse sobre o futuro da série. Mas não se engane: a mudança de câmera foi a alteração mais brusca e funcionou muito bem. Os elementos que um dia já fizeram esta franquia brilhar estão lá e foram modernizados, colocando a franquia da Capcom de volta aos trilhos. A fórmula para o futuro da série está pronta, resta apenas ajustar algumas falhas na sua execução.

Esqueça as comparações com Amnesia, Outlast ou PT. Não tenho dúvidas de que houve inspiração neles, mas você não vai encontrar nada como Resident Evil 7 no mercado.

Esta análise foi realizada com base na versão de PlayStation 4 gentilmente disponibilizada ao Jogazera pela Capcom.

Resident Evil 7
Atmosfera incrívelEfeitos de iluminação surpreendentesElementos clássicos de volta
Protagonista inconsistenteÚltimo terço do jogo deixa um pouco a desejarPouca variedade de inimigos
8.5Valor Total
Votação do Leitor 5 Votos
8.9