É bem chato quando ficam te dizendo o que fazer. O que comer, o que vestir, pra onde sair — ninguém gosta que fiquem dando palpite em todos os seus afazeres. Principalmente quando comentam, nas suas costas, as suas ações. Como se questionassem se o que você está fazendo (ou deixando de fazer) é certo ou errado. Se você já passou por situação parecida, sabe o quão perturbador é isso.

Agora, imagine por um momento que essas vozes não são de pessoas reais, e sim frutos da sua imaginação. Sua cabeça é entulhada de vozes que ditam sobre o que você faz e sobre quem você é como ser humano. Não são simples vozes aleatórias: na maioria dos casos são agressivas, inoportunas. Casos como de Senua, protagonista de Hellblade, são reais. Atualmente, esse sintoma é um dos mais recorrentes em casos graves de esquizofrenia, um transtorno mental traiçoeiro que ainda tem sua origem debatida pela comunidade científica.

Hellblade trata esse fenômeno como uma psicose, termo originado de teorias psicodinâmicas (e da própria Psicanálise de Freud) em que há um rompimento do indivíduo com a realidade — algo quase intrínseco do próprio sujeito, decorrente de histórico de vida conturbado, abusos e até mesmo um viés genético. Em casos de pacientes psicóticos, é possível ocorrerem delírios e alucinações: achar que está sendo perseguido, crença em teorias da conspiração contra a pessoa e que estão tramando algo contra ela.

Além de ser um ótimo jogo de ação e contar uma belíssima história, Hellblade: Senua’s Sacrifice é um dos poucos jogos que contam com uma retratação respeitosa e realista de pessoas que sofrem com esse transtorno. É uma obra que merece ser creditada por trazer luz à discussão sobre esse tema nos videogames. Fico extremamente satisfeito pelo modo que foi representado, nos mostrando o lado humano da protagonista, muito além de uma esquizofrenia e outros transtornos mentais.

Além da espada

Hellblade conta a história de uma jovem guerreira de uma tribo celta. Senua carrega o estigma de um transtorno mental que, dado a ambientação e contexto do jogo, poucas pessoas entendem. A julgam como amaldiçoada, alguém portadora de uma escuridão que traria fim à todos na tribo. Esse transtorno, algo que entendemos hoje como uma espécie de esquizofrenia, seria a causa dos muitos tormentos que ela passaria a enfrentar em sua vida, principalmente em relação a seu pai.

O pai de Senua, Zynbel, sempre a considerou como um perigo. Sua condição era tratada uma maldição dos deuses, algo que precisava ser combatida a todo custo. Na cabeça dele, era preciso fazer algo para “acalmar” esses deuses — o que ele fez em função disso, entretanto, é algo que o jogador descobrirá ao longo do jogo. Após anos sendo atormentada por seu pai, Senua encontra uma nova razão de viver num rapaz chamado Dillion, um jovem guerreiro de sua tribo e, como esperado, não demoraria muito para se apaixonar.

A felicidade não duraria muito. Uma praga se espalha rapidamente no vilarejo de Senua, matando dezenas de pessoas, incluindo o pai de Dillion. A jovem, então, parte numa jornada na floresta em busca de conhecimento para proteger seu amado e superar a escuridão em seu ser. Em sua jornada, ela encontra um homem chamado Druth, um sábio e ex-escravo de uma tribo nórdica que foi quase queimado vivo por seus captores em suas tentativas de fuga. Druth passa a Senua todo seu conhecimento sobre os mitos e deuses nórdicos, prometendo sempre auxiliar Senua em seu caminho.

Porém, o inferno a aguardava mais uma vez. Ao voltar, Senua descobre que sua vila foi atacada e Dillion morto de um jeito horrendo numa espécie de oferenda aos deuses. Sofrendo de uma crise psicótica, todos os demônios interiores que atormentaram a vida da protagonista desde a época de seu pai voltam a infernizá-la. Todas as vozes, todo o tormento que ela havia pensado ter melhorado. Numa busca desesperada de redenção, ela se lembra de um das lendas: caso consiga levar a cabeça de Dillion até o reino de Helheim, o lar dos mortos, talvez consiga barganhar com Hela, a dominadora desse reino, a vida de seu amado de volta. Contra o mundo e contra todos, Senua parte em sua missão de vida rumo ao reino dos mortos para dar a Dillion mais uma chance.

É uma das histórias mais cativantes, apreensivas e bem contadas de boa parte dos jogos que joguei esse ano. Senua se torna alguém com quem você se importa e quer ajudar. Você sofre junto, chora junto, tudo ao mesmo tempo. A narrativa, além do sistema de combate, é um dos pontos mais altos em Hellblade.

Luta de espadas

Apesar de seu alto teor narrativo, Hellblade é um jogo de ação. Você anda por variadas seções dos mais variados e incríveis mapas que o jogo oferece, resolvendo puzzles e acionando as ”lore stones”, pedras que contam as histórias dos deuses nórdicos, narradas por Druth. Enquanto não se está andando, você luta. O sistema de combate é fluído, único e extremamente responsivo. Aqui, a Ninja Theory colocou toda sua experiência em prática para se trazer algo tão dinâmico e intenso.

Todas as batalhas em Hellblade são intensas. Embora há poucas lutas contra chefes, estas são marcantes e te fazem lembrar que esse tipo de batalha deve ser levada com seriedade. Senua é ágil e capaz de esquivar de golpes, mesclando os ataques com a espada entre rápidos e fortes, além de um “desarme” do inimigo que é realizado com um chute ou ombrada. É um dinamismo parecido com de For Honor, da Ubisoft — mas sem os problemas que o jogo em questão apresenta.

Vocês se lembram da controvérsia da morte permanente que o jogo causou no lançamento? Esse foi um ótimo fator para enfatizar o quanto as lutas devem ser travadas com garra. Embora tal sistema não esteja realmente presente no jogo, foi um fator de alerta, de me fazer considerar que toda luta poderia ser perdida. Você não luta apenas por progredir na história, mas pela personagem. É uma motivação maior.

Vozes na sua cabeça

Outro aspecto incrível em Hellblade é sua maestria sonora. Além das belíssimas músicas e da trilha sonora, Hellblade inteiro foi gravado em 3D binaural. Esse tipo de áudio fornece um detalhamento sonoro ambiental maior por sua melhor capacidade de emitir sons de diversos ângulos. É o mesmo tipo de som gravado em vídeos ASMR, que para muitos causa uma boa sensação enquanto para outros um profundo desagrado. São barulhos que atingem diretamente o seu cérebro.

Por retratar um dos sintomas da psicose, as vozes na cabeça de Senua vão para a sua. Todos os julgamentos, comentários e persuasões que a personagem sofre passam ao jogador, fornecendo uma experiência assustadoramente imersiva. As vozes, muitas vezes, falam bem baixo, no pé do seu ouvido. Sussurrando cada passo e cada ação que Senua faz. Por isso, jogar com um fone de ouvido (e de qualidade) é parte essencial da experiência.

Embora todos os aspectos positivos que citei aqui, Hellblade foi um jogo que não consegui jogar por várias horas seguidas. Dividia meu tempo em pequenas partes e conquistas para, enfim, zerá-lo. Encarnar na pele de uma personagem com um transtorno mental tão sério e com uma história tão pesada é algo que você deve considerar se é algo sustentável ao seu ser.

Esquizofrenia/psicoses são temas sérios, pesados. A temática aqui foi retratada com perfeição e com um desfecho maravilhoso, colocando Hellblade num dos melhores jogos dessa geração. Porém, considere todos esses pontos citados.

Fiquei na ânsia de ver mais essa temática tratada nos jogos, de forma principalmente coerente. Hellblade: Senua’s Sacrifice foi uma das melhores experiências que tive nesse ano.

Hellblade
Temática bem representadaVisuais, atuação e personagens incríveisSistema de combate dinâmico e fluidoSistema de áudio e trilha sonora impecáveis
Pouca variação de inimigos comunsSistema de auto-save confuso
9.5Valor Total
Votação do Leitor 1 Voto
10.0