Antes de iniciar o review, um aviso: apesar de conhecer os elementos da franquia, pouco joguei dos anteriores, então as opiniões aqui colocadas são puramente baseadas na experiência de jogar Far Cry Primal sem nenhum tipo de “carga” dos anteriores – para o bem ou para o mal, depende do seu ponto de vista.

Dito isto, Far Cry Primal é no mínimo uma aposta audaciosa da Ubisoft, ao lançar uma versão que não segue a linha dos anteriores, e só isso já é algo a ser reconhecido em uma indústria acostumada a repetir as mesmas receitas. É óbvio que há elementos que deixam claro se tratar de um título da Ubisoft, como a existência de side-missions que dão a oportunidade para cada jogador explorar e avançar no jogo da forma que melhor escolher, bem como ter de conquistar bases inimigas utilizando aproximações táticas. Mas tirando alguns elementos, é um jogo completamente novo.

E é aí que está a beleza de Primal, por trazer uma experiência renovada para a franquia.

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Liderando seu povo

Você é Takkar, membro dos Wenja, tribo que se desmembrou e acabou tento seus membros espalhados pelo mundo. Seu objetivo é encontrar e reunir seu povo novamente, assumindo o papel de líder meio que sem querer. Seu principal obstáculo é Ull, chefe da tribo Udam, praticantes de canibalismo e que se tornaram extremamente fortes e vem dizimando os Wenjas e outras tribos. Você deve avançar pela Terra de Oros, encontrando seu povo, reconstruindo sua tribo e conquistando bases inimigas, dizimando os Udam na busca por Ull. A conquista das bases inimigas é uma parte importante da história e da progressão, pois além de criar pontos de Fast Travel também é a maneira mais efetiva de aumentar a população da sua tribo, algo necessário para conseguir melhores armas, gears e outros upgrades.

Mas Ull e os Udam não são seus maiores inimigos em Primal, e sim sobreviver a Terra de Oros e seus desafios. Alguns jogadores poderão estranhar que o vilão do jogo não é tão proeminente na história, mas eu particularmente acho isso revigorante pois sai um pouco do feijão-com-arroz e oferece outros tipos de desafios.

 

Caçar, coletar recursos e sobreviver

Não se engane, Primal é basicamente um Survival em sua essência, e em Oros caçar e coletar recursos é uma parte que não pode ser negligenciada. Sua tribo está em constante expansão e você precisa abastecê-los com quantidades constantes de madeiras raras, rochas, plantas e peles de animais. Todos os itens que Takkar utiliza (tacapes, arcos, flechas, lanças, roupas, etc) são criados a partir de um sistema de craffting presente no jogo, requerendo uma variedade de materiais e combinações para serem criados e melhorados, bem como as habilidades de cura, velocidade e caça de Takkar também dependem de consumíveis.

Apesar disso, a Ubisoft acertou a mão no balanceamento de o quanto você deve caçar e coletar, sendo algo naturalmente feito durante a evolução do jogo e realização das missões, graças especialmente a “Visão de Caçador” que você pode ativar a todo instante e facilita muito na hora de detectar animais e outros objetos. Desta forma, Primal não fica nem perto da ser um grind interminável e cansativo como ocorre em outros títulos – sim, estou olhando para você ARK!

 

Você não pode fazer tudo sozinho

coruja_cropMesmo evoluindo Takkar e liberando todas as skills disponíveis, Oros é uma terra perigosa e cheia de desafios, e você irá precisar de ajuda para conquistar as bases mais protegidas e coletar peles de ursos e mamutes. E aqui que entra uma das partes mais divertidas e prazerosas de Primal: a ajuda não vem de membros da sua tribo (que na real são bem fraquinhos), mas sim da possibilidade de domar animais selvagens e tê-los como seus companheiros.

Seu primeiro companheiro é uma coruja, destravada a partir de uma missão, que funciona de forma diferente dos demais animais e se torna como um segundo par de olhos – você a chama a qualquer momento através de uma tecla e passa a controlá-la em terceira pessoa, podendo investigar acampamentos para definir a melhor estratégia, marcar inimigos e até realizar ataques poderosos destravando as skills da sua companheira. Não ignore seu uso pois é uma parte tática muito importante em Primal que pode ser utilizada em conjunto com os demais pets, resultando em ótimos combos de ataque.

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Já seus demais companheiros precisam ser domados pra se transformarem em pets. O processo é relativamente simples e se mantém idêntico ao longo do jogo, onde única diferença é que para adquirir animais mais poderosos você precisa evoluir suas skills de Beast Master.

No início é possível domar lobos, jaguares e hienas, depois tigres comuns, tigres dente de sabre, leopardos, ursos marrons e ursos de caverna – este sendo o mais forte de todos e perfeito para invasões no estilo “brute force“.

O controle dos seus pets é relativamente simples, e para trocar de um para o outro é só acessar o menu de gerenciamento dos animais (tecla B no PC) e selecioná-lo. Cada animal possui suas próprias características, como força, rapidez e fator surpresa (stealth), e quase todos possuem suas versões raras que são um pouco mais poderosas. Sendo assim, a escolha do animal conforme o tipo de ataque que deseja realizar é um elemento tático importante.

Por fim, e talvez a parte mais divertida, é a possibilidade de utilizar seus pets como montaria após destravar a skill de Beast Rider. Esta é a forma que a Ubisoft encontrou para ajudar na locomoção do mapa sem a existência de veículos em 10000 a.c, e na minha opinião acertaram em cheio. Há três opções de montaria: Tigre Dente de Sabre e Urso Marrom – que precisam ser pets domados – e Mamute Jovem, que não é possível domar mas pode ser utilizado como montaria temporária ao se aproximar lentamente. Enquanto montado você pode realizar ataques normalmente, inclusive recebendo bônus XP quando derrota um inimigo desta forma – e definitivamente montar o Mamute é muito divertido pois ele sai “atropelando tudo” e lançando inimigos ao ar.

Com tudo isso, podemos dizer que este talvez seja o elemento mais inovador da franquia e muito bem implementado. Além de ser muito prático devido a questão da montaria, a companhia dos seus pets deixa o jogo menos solitário e é parte ativa do gameplay.

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Aprecie a vista e explore Oros

Com a quantidade de side-missions existentes e o tamanho do mapa aberto, há muito o que fazer além de “correr” para terminar o jogo. É claro que as vezes isso atrapalha um pouco e é fácil ficar um pouco perdido com tantas possibilidades, mas uma forma que a Ubisoft encontrou de amenizar isso foi com a parte gráfica. Oros possui lindas paisagens, rios, cachoeiras e cavernas para serem exploradas, e o efeito do sol quando se sai de uma área escura é um dos mais bem simulados que já vi. A sensação de imersão pode inclusive ser intensificada com a opção adicionada pela Ubisoft no último patch, sendo possível personalizar o que será mostrado na tela ou mesmo esconder todos os elementos da interface (mapa, avisos, marcação de inimigos, comandos, tudo).

Os gráficos são bem feitos e as soluções escolhidas pela Ubisoft para resolver algumas questões foram bem felizes – como por exemplo a dificuldade de que animais e outros objetos não estejam sempre camuflados pelo fato de se estar no meio de uma selva, problema presente em vários games que possuem a mesma temática ou cenários de selva – sendo Primal tudo que ARK gostaria de ser neste quesito por exemplo.

Claro que minha experiência foi jogando em uma GTX 980 TI a estáveis 100+ FPS em 1080p, mas pelos meus testes mesmo com alguns efeitos desligados o jogo se mantém muito bonito. Aliás, uma dica: não consegui notar nenhum benefício em deixar o jogo totalmente em Ultra. Basicamente o que muda são as texturas que ficam com uma maior qualidade se você for dar um zoom em uma screenshot, mas é algo que compromete o FPS e não dá um resultado notável durante a jogatina, então minha sugestão é deixar algumas cosias em Very High / High mesmo.

E como não podia faltar, por ser jogador de PC que gosta de realizar tweaks, apliquei um profile de SweetFX em Primal que deixou o jogo ainda mais bonito – todas as imagens aqui no review foram tiradas por mim e estão com o SweetFX aplicado. Veja abaixo um comparativo para com os gráficos originais.

Mas nem tudo são rochas flores

Claro que quando fazemos um review sempre há coisas que poderiam ser melhores, e com Primal não é diferente.

A progressão dentro do jogo se torna um pouco overwhelming (sobrecarregada) com a quantidade de side-missions e demais objetivos secundários que vão aparecendo pelo mapa. Neste quesito acredito que a Ubisoft poderia ter limitado um pouco mais a quantidade de mapa que abre cada vez que você conquista uma nova base, e também ter sido um pouco mais clara na ordem que as missões da sua tribo devem ser executadas. Apesar de ser um “open world”, não raro me deparei com algum local onde não consegui alcançar pois ainda não havia destravado o “gancho de escalada” que fazia parte de outra missão (para citar um exemplo, mas não o único), o que tornou a experiência um pouco frustrante.

Sua tribo é “esquecível” na maior parte do tempo, algo que poderia ter sido explorado de alguma forma mais excitante. Geralmente é você que tem que ajudá-los pois diferente da agilidade que Takkar tem, todos eles são meio bobões. E definitivamente algum tipo de modo co-op poderia ter sido pensado, seria muito divertido explorar Oros com alguém jogando junto.

Os gráficos, apesar de bonitos, possuem pontos que poderiam ser melhor balanceados. A qualidade das texturas e dos renders dos personagens por exemplo não está presente nos animais, mais notável nos seus pets devido a forma de interagir com eles, ficando visível que os pelos não possuem uma qualidade muito realista. É fato que Primal não sofre de quedas abruptas de FPS como Tomb Raider e seu TressFX Hair, mas acredito que poderia ser um pouco mais polido.

Há ainda questões pequenas mas que poderiam existir para facilitar a jogabilidade, como por exemplo alguma forma de “marcar” as paredes de uma caverna que se está explorando – pois não raramente você se verá meio perdido para achar a saída – ou mesmo o fato de não ser possível entrar com seu pet na sua própria tribo – algo meio “lame” que não consigo entender o motivo e acaba quebrando um pouco a história visto que todos lhe chamam de Takkar Beast Master, mas na maior parte do tempo ninguém lhe vê com suas Beasts.

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Concluindo

Far Cry Primal definitivamente foi uma aposta ousada da Ubisoft ao tentar sair da zona de conforto e renovar uma franquia ao lançar um jogo totalmente diferente dos antecessores. É claro que a experiência de ser Takkar tem seus altos e baixos, mas os pontos altos são grandes o suficiente para garantir que a experiência seja majoritariamente positiva.

Se você é do tipo que gosta de um survival open world mas que ofereça um objetivo e a sensação de progressão, Primal é uma boa escolha.

Junte a isso belos gráficos, jogabilidade equilibrada, toda a experiência introduzida pelos pets e o fato de que não é necessário “correr” para chegar ao fim, e temos aí um ótimo jogo que pode render boas horas de diversão.

 

Análise: Far Cry Primal é aposta e renovação na dose certa
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