Missões de escolta nunca são vistas com bons olhos em grande maioria dos videogames, desde muito tempo. A infame parte de proteger a Ashley em Resident Evil 4 causou certos traumas na comunidade, e com toda a razão: um NPC que não consegue fazer nada além de gritar “HELP” certamente não é de muita ajuda – principalmente quando hordas de monstros, zumbis e inimigos estão na sua cola a cada metro quadrado. Muita coisa pra se preocupar, né?

Em 2013, dois jogos em particular mudaram meu conceito de como um jogo pode transformar missões insuportáveis de escolta em um design cooperativo satisfatório e decente. Bioshock Infinite e The Last of Us mostraram ao mundo como Elizabeth e Ellie não eram IAs inúteis, mas sim aliadas que deixavam a trama muito mais divertida pelo simples fato de não precisarmos nos preocupar se elas estavam em perigo ou não (além de auxiliar o jogador em diversos momentos).

A Plague Tale baseia todo seu game design em volta desse conceito, montando uma equipe de NPCs que estão ali mais para te ajudar do que atrapalhar. Embora algumas execuções precisam estar atreladas a narrativa (como o irmão pequeno da protagonista, chamado Hugo, precisa estar perto da personagem quase o tempo inteiro), o jogo funciona como uma gigante missão de escolta no qual stealth é primordial para o sucesso. As primeiras impressões foram preocupantes – ficar vigiando um menino de 5 anos de idade – mas após ter finalizado o jogo, tudo funcionou como devia, apesar de alguns pequenos tropeços.

Esperança em tempos de guerra

Ambientado numa temática medieval do século XIII, A Plague Tale conta a história dos irmãos Amicia e Hugo. Pertencentes a uma próspera família chamada De Rune, Amicia vivia uma vida tranquila juntamente a seus pais. Hugo, por outro lado, era um caso a parte. O menino, de apenas cinco anos, passava a maior parte do tempo aos cuidados de sua mãe, Beatrice. O pequeno aparenta ser portador de alguma doença rara que exige cuidados intensos, embora o jogo deixe esse fato bem nebuloso nos capítulos iniciais.

A trama começa a se desenrolar quando a residência dos De Rune é invadida e atacada pela Inquisição, matando os servos e cuidadores da família, um a um. Amicia e Hugo conseguem fugir, embora o mesmo não se pode dizer de seus pais. Desolados e sem rumo, os irmãos precisam juntar forças e encontrar respostas para o que aconteceu com sua família e desvendar os segredos da doença de Hugo, além de terem que lidar com a terrível infestação de ratos que está assolando toda a região.

Essa época também marca um dos períodos mais sombrios da humanidade. Uma Europa devastada pela peste negra e perseguida pela Inquisição católica, que com punhos de ferro caçavam e matavam os ditos “hereges” e quem era contra os ideais impostos pela Igreja. Toda a trama dos De Rune se envolvem nessa temática, trazendo reviravoltas e novos personagens que os auxiliarão na jornada.

Embora toda a história seja concisa e traga inúmeros momentos memoráveis, a tendência de usar crianças para criar impacto emocional é uma maneira bem baixa de querer ser relevante, além de ser algo completamente manjado. Mesmo não sendo algo gritante – ou que o estúdio devesse abdicar desse conceito para a história funcionar – é um detalhe que precisa ser levado em conta ao criar esse tipo de narrativa. Hugo consegue ser um personagem completo sem precisar desse apelo, mas parece ser inevitável apenas para criar drama. 

Corra, garota, corra 

Como mencionei, o stealth em A Plague Tale deixa de ser uma necessidade para ser, basicamente, o único jeito de jogar. Amicia é uma garota adolescente e não possui muita força física e seu irmão é apenas uma criança. Explicando dessa forma soa a impressão que o jogo possa ser chato ou possuir mecânicas engessadas, mas felizmente os desenvolvedores conseguiram contornar esses problemas de maneira bem criativa. Possuindo uma funda como arma principal, Amicia pode usar diversos tipos de munição para desviar a atenção dos guardas e até matá-los, além de ser uma satisfatória arma de se usar. 

O crafting também é usado de maneira extensiva, de forma bem parecida a outros jogos de ação em terceira pessoa. Amicia pode melhorar sua funda para fazer menos barulho, aumentar o inventário e portar mais ingredientes de craft, descobrir novas munições, melhorar suas vestimentas e outros upgrades do tipo. É possível encontrar áreas secretas com mais ingredientes (como umas carruagens de alquimia) e a exploração é algo que deve ser considerado toda vez ao entrar em um novo cenário e ambiente – fatores que me lembraram demais The Last of Us. 

Como lidar com hordas e mais hordas de ratos e uma legião cavaleiros, portados de espadas, escudos e alabardas, com apenas uma funda? Nossa protagonista não está sozinha e conta com vários ajudantes na jornada, como os ladrões Melie e Arthur, o ferreiro Rodric e o jovem alquimista Lucas. Cada personagem desempenha um papel importante no gameplay e ajudará Amicia a lutar contra a Inquisição e a infestação dos ratos. Em determinadas partes do gameplay o jogador pode comandar seus aliados para executar ações como derrubar guardas silenciosamente, abrir portas e baús e outras interações especiais. 

Tudo funciona de maneira coerente e divertida, mesmo que os puzzles sejam extremamente simples e contextuais. A clara intenção é a exploração, focar no crafting e transformar Amicia numa máquina de combate. Os capítulos finais contam com uma outra mecânica sensacional que eu gostaria de ter usado no decorrer do jogo, mas que não estava presente por motivos de narrativa bem óbvios. No fim das contas, A Plague Tale me surpreendeu com um gameplay simples que consegue transformar situações problemáticas em vantagem para o jogador. 

A peste negra

A Plague Tale conseguiu me cativar do início ao fim, apresentando mecânicas inusitadas que deram certo e uma sequência de pontos positivos que agregam ao valor do jogo, mesmo não apresentando nenhuma ideia necessariamente original. As inspirações foram claras e serviram para contar uma boa história no qual os problemas podem ser relevados. 

Entretanto, é importante notar que não houve uma mega produção com orçamento milionário – a performance da dublagem dos personagens é inconsistente e oscila entre momentos de clara emoção para algo totalmente fora de tom. Animações faciais e corporais não são excepcionais e há ocasionais bugs de cenário e nas ações. Dito isso, é importante nivelar as expectativas. 

Sempre é bom ver novas IPs surgindo, com temáticas interessantes e uma fundação sólida de gameplay e design. Se você curte aventuras na idade média, A Plague Tale merece ficar no seu radar. 

A Plague Tale: Innocence foi analisado com base na versão de PC cedida gentilmente pela distribuidora.
Um lembrete que a idade média foi horrível
HistóriaGameplayAmbientação
Performance de dublagemAnimações faciaisBugs
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